terça-feira, junho 6

Entra tosco e aos apalpões, de órbitas enormes e salientes, os olhos fixados num ponto qualquer que não faz sentido. No medo do choque, o crânio calvo segue num plano recuado ao do tronco, traz a coluna a prumo, o chapéu-de-chuva vai tocando aqui e ali a medir distâncias e a sentir arestas. As pernas movem-se com rigidez. O rosto, esse, é bonacheirão, de nariz grande e redondo, faces escanhoadas, testa longa. Os lábios finos, de homem, como pedindo condescendência e apoio, desenham um sorriso quase perene, que só desfaz quando, sentado, já com o café e pastel-de-nata que a menina do balcão, reconhecendo-o de todos os outros dias, lhe vem, contra as regras da casa, deixar à mesa, se sente desacompanhado, fora de cena.

Tento imaginar como será sair de casa praticamente cego. Começo por me lavar, por me vestir. Estarei sozinho? Estará alguém comigo, nessa tão chata e tão profunda intimidade?
Ou estará a casa a meu exclusivo e especifíssimo jeito, toda organizada e arrumada para que a saiba ver de olhos fechados? Terei comigo o gato? Ele poderia, sem dúvida, aprender os meus passos, forçosamente repetidos, obedientes à casa organizada e arrumada, encaixados nessa organização, para saber não se postar diante de mim, aos meus pés, de lombo alevantado, de cauda arrebitada, de olhos melosos voltados para cima a pedir uma festa matinal, e, nessa ingénua afectividade, provocar a minha queda e com ela desarrumar a casa, o meu dia, o meu corpo todo, porque um gato, apesar de tudo o que por aí se diz, quer bem a quem o trata bem. Imagino-me já lavado, já vestido, e sozinho.  Sim, sozinho. Afinal de contas, como pode um homem que se preze sequer pensar em sujeitar uma mulher ou algum familiar a uma tão lamentável e estéril situação? Sozinho, enfim, calço-me, talvez estupidamente sentado no chão, porque imagino que é bom. Dou com a chave, fecho a porta, estou no hall do prédio. O mais lógico será tomar o elevador. Isso afigura-se-me inesperadamente fácil. Basta decorar bem os pequenos desníveis do chão, arrastar os pés um pouco, estar concentrado. Estou ainda dentro do prédio, do lado de cá do vento e do ruído e do mundo desorganizado e desarrumado e sem quem me aprenda os passos para não me fazer cair. Abro a larga porta de vidro, levo com aquilo tudo na cara, mas isso era previsível e basta apenas aguentar o primeiro impacto. Sinto frio no rosto e no pescoço, e o ar húmido e os cheiros da chuva. Estou ainda no alpendre do prédio, o abismo das escadas defronte, arrasto discretamente os pés até sentir o rebordo do primeiro degrau, tenho a mão direita a roçar na parede áspera só para me dar uma referência adicional, e vou pensando se venho com roupa adequada a um tão estranho junho. Penso que o principal será assentar bem o pé no primeiro degrau, o cérebro calcula a passada necessária para escorrer pelos outros abaixo, até à calçada, matematicamente. Estou na calçada, intacto. Faço contas aos lancis, estradas, degraus, postes de electricidade, sinais de trânsito, canteiros, reclamos, esplanadas, paragens de autocarro, árvores, bancos de rua, desníveis vários, inclusive uma estátua enorme, que se interpõem entre mim e o café. Devia talvez escolher outro café que não este, nesta rua que desce tanto, nesta rua que fica tão para cá de tantos obstáculos. A cegueira faz ver obstáculos que de outra maneira são invisíveis?
Bom, deixo-me deste exercício afinal estúpido, talvez ofensivo, seguramente errado. Mas é que este homem que existe e que está diante de mim, a duas mesas de distância, sai de casa assim, praticamente cego. Não sei onde e como vive, se longe, se com alguém, não sei e não saberei nunca, porque há mesmo coisas que nunca sabemos mesmo. Mas é que este homem, dizia, costuma ter neste café um lugar onde consegue sentar-se e estar e tomar o seu café e pastel-de-nata, onde encontrou já uma hora e uma mesa suas, num canto perto do balcão em que o assento é comum, corrido à face da parede, e lhe é de fácil acesso e bom apoio e conveniente até à menina do balcão que, como é para ele, lhe leva o serviço à mesa, os dois precisando já de poucas palavras, e as que sempre são precisas têm muito de cumprimento e pouco de utilitário, e tudo isto é muito importante e bom para qualquer homem, e que o deve ser ainda mais para um homem praticamente cego que vem sozinho e, levado pelo amor e por uma concepção qualquer de homem prezável, seja talvez só.

Hoje, aqui chegado, o homem deu-se conta de que ocupavam a sua mesa e hora do costume. Ali se encontravam duas mulheres passageiras que só tinham atenção para o umbigo da sua coloração de cabelo, para o brilho dos seus ecrãs de toque, e que viram na sua aproximação tentativa, no seu sorriso idiota, nas suas órbitas grotescas, na sua mão hesitante, apenas o comportamento repugnante e risível de um doidinho. Acostumado a que o reconheçam e lhe cedam aquele lugar – pode um simples lugar num café assemelhar-se tanto a um lugar no mundo? –, ali se quedou por uns segundos, de olhos fixados no tecto, balbuciando qualquer coisa na sua voz grave. Pareceu-me envergonhado, sentiu-se certamente ridículo, subitamente mais cego e desamparado. O sorriso cordial e devedor morreu-lhe por instantes no rosto, dilui-se em duas longas rugas que lhe sulcam a face. Uma mesa vizinha, a duas mesas de distância desta, de alguém mais familiar, deu-se conta e logo, dentro do possível, rearrumou aquele homem. Pensei, não sei bem porquê, que tudo seria mais fácil de aguentar se ele fosse mais novo.

terça-feira, setembro 16

O mero prazer, a irritação mais ou menos profunda, o aborrecimento: estes sentimentos, e enfim todos os que possamos apontar, são apenas periféricos, parciais, superficiais; e uma mulher a que nos liguemos não nos inspirará jamais esses sentimentos. Podemos crer que sim, se, mais tarde, reflectirmos acerca dalguma experiência ou ocasião partilhadas com essa mulher ou dalguma maneira a ela associada e tentarmos esquematizar ou traduzir aquilo que sentimos. Mas isso será sempre uma redução ao inteligível, ao dizível, uma fragmentação aleatória do todo que não somos capazes de nomear por inteiro. Isto é, fazer sexo com a mulher amada não é uma experiência «de prazer» - ainda que necessariamente o prazer nos beneficie - bem como um desentendimento com ela não é apenas uma contrariedade; antes são dois acontecimentos totais em que nada mais se ouve, nada mais existe. As suas consequências ultrapassarão sempre, e largamente, a nossa percepção e a nossa capacidade de ajuizamento, mas serão sentidas em toda a sua extensão e deixarão a sua marca. Se se passar de forma diversa, não é Amor. E isto é tanto mais verdadeiro quanto tentar dizê-lo de forma mais específica ou mais completa resultará invariavelmente em dizê-lo mal.

sexta-feira, setembro 12

11 de Setembro: 13 anos

O jornal de hoje estava pejado de pequenos artigos e entrevistas de e a académicos, analistas e políticos de carreira que, não sem generosidade, partilharam da sua mundividência acerca do que tem passado no Iraque e um pouco por todo o Médio Oriente, das perfídias do Estado Islâmico & outros que tais e, enfim, do «terrorismo internacional» em geral. Fiquei sabendo, por estes miradas impressas, que os olhinhos de todos estes ilustres homens ilustres só enxergam pelo estreito deixado pelas palas erigidas no bárbaro derrube do World Trade Center, no dia 11 de Setembro de 2001, há 13 anos em ponto. O presente é por esta gente observado à luz da impossível versão das autoridades estadunidenses e mesmo quanto ao futuro são as suas posições meramente o eco das já remotas futurologias oficiais do pós-11/09. Nada de novo: uma mentira horrível foi feita História.
Estão em causa coisas muitíssimo mais importantes que a História (que não é só uma disciplina pseudo-científica encomendada, ou pelo menos convenientemente domesticada, pelos Vencedores; é também um terreno fértil por natureza para o cultivo de toda a sorte de mitos, bem como dumas quantas modas mais ou menos passageiras). Estão em causa 13 anos de agressões armadas e invasões militares estrategicamente perpretadas em larga escala e que se traduziram num ror indizível de atrocidades, mortes e novas formas de caos (nalguns casos, formas inaugurais de caos) infligidas a povos e em territórios que uma aliás muy light propaganda, a que nem sequer faltou o elemento religioso, travestiu num pretenso inimigo global, simultaneamente anónimo e identificado, longínquo e vizinho, primitivo e sofisticado.
(Quando, por ocasião da atroz execução em vídeo de dois reféns, o carrasco, apresentado como sendo um jihadista do Estado Islâmico, falou num inglês de sotaque britânico, a máquina propagandística assustou-se ligeiramente: aquilo não encaixava lá muito bem no preto-e-branco distribuído para consumo geral.)
Estão em causa também um conjunto vastíssimo de leis, normas e directivas aprovadas sobretudo ainda durante o período de choque (pico do acriticismo) pós-11/09, mas também ao longo dos últimos anos, que ampliaram assinalavelmente o raio de acção dos governos norte-americano e europeus na intrusão e controle de liberdades individuais ligadas à privacidade, à expressão intelectual e artística ou à deslocação de pessoas e bens. Tudo feito, claro está, em nome da sobre todas sagrada segurança dos Estados.
Estão em causa, numa palavra, os fundamentos básicos de qualquer sociedade que se deseje livre e informada: justamente a sua liberdade e a informação a que tem acesso.

Hoje o jornal anunciava a estreia d' Os Maias, de João Botelho. Ao que parece, o realizador português usou, a par com elementos naturais, telas gigantes com pinturas de João Queiroz para as cenas exteriores, deixando a nu a mentira essencial de qualquer produção artística, "confessando - nas palavras de João Lopes - a manipulação que o sustenta [ao cinema, bem entendido]". Esta abordagem é quase diametralmente oposta à esmagadora maioria do cinema de grande distribuição filmado em Hollywood na última vintena de anos, em que, mais do que recorrer a uma representação do real como veículo da ficção, se procurou em grande medida tomar o lugar do real, substituindo-o. Aquilo que nos é dado ver nesses filmes (quanto a cenários e tramas) não é uma representação, uma imitação, menos ainda uma mera moldura ou cenário; aquilo é a realidade, a realidade é assim.
O que, a ser verdade, não será alheio à facilidade quase incompreensível com que (voltando ao 11/09) a inverosímel versão oficial foi globalmente acatada (das poltronas almofadadas da audiência entertain me dos cinemas Lusomundo aos estrados de madeira dos professores universitários). Isto é dizer que o cinema pop, nem por isso perdendo a sua condição de forma de expressão artística, é mais uma roda-dentada da engrenagem cujo intuito consiste no adormecimento geral do sentido crítico (trave-mestra das democracias maduras). E que a "informação" veiculada pelos mass media, feita para e por uma sociedade espectacularizada, é outra.
Recordo-me duma conversa de café com dois amigos, numa noite no Verão de 2004, a propósito dos atentados em Madrid (11/03). Eu questionava as versões que nos chegavam pelos meios de comunicação de todos estes acontecimentos; incrédulo, chamava a atenção para o facto de, após num primeiro momento as autoridades espanholas terem apontado o dedo à ETA, se terem virado para a al-Qaeda por terem encontrado numa carrinha tipo Kangoo estacionada, salvo erro, perto da Estação de Atocha "engenhos explosivos" e folhas soltas do Corão. Não entendendo a minha hesitação perante tamanhas evidências, disse-me de pronto um dos meus convivas:
"- Então e queres mais provas?!"

Estes mecanismos oficiais e públicos de criação-recriação histórica são assustadoramente eficazes, e nisto refiro-me também aos seus agentes e produtos finais propriamente ditos. A alternativa - verdadeiramente, apenas uma: cada um de nós com a sua precária memória e a sua visão dos acontecimentos que, melhor ou pior, testemunhou - não dispõe, seja em que contexto for (e, quanto mais abrangente, pior), do arcaboiço de certeza & credibilidade que se insiste em reconhecer a estes mecanismos, cuja profunda eficácia é especialmente azeda quando, volvidos apenas 13 anos, mesmo um tenaz e convicto desalinhado hesita e dá por si a questionar boa parte de tudo aquilo em que acreditou e por que se bateu há, afinal, tão pouco tempo.
(Que, tendo o desalinhado hesitado e questionado os seus fundamentos, retome, ainda que a partir do interior da pele diferente que hoje o envolve, aquilo que noutra época o tomou praticamente por inteiro e, com uma boa porção de filosofia à mistura, se reencontre até nesse processo, resulta quase indiferente.)

quinta-feira, setembro 4

"O que é a vida sem casa?"

Terá sido nos idos de 1995: a Ilha do Fogo reafirmava a justiça do seu baptismo ao tirar do estômago da terra, já não as batatas ou o feijão que os insulares lhe rogavam, mas uma lava rubra & negra que, de par com uma cinza sem fim que descia dos céus, foi de casa em casa caminhando, com a certeza duplamente lenta e repentina da Morte, a trazer a má-nova do fim de tudo o que, até ali, fora a vida.
Um jornalista português foi até àquelas paragens com a incumbência de recambiar de volta à costa atlântica da Península os ecos que a sua ciência lhe desse azo de recambiar. Dele a expressão «lava rubra e negra». Terá estado com um homem junto à sua casa já moribunda, apenas matemática questão de cronómetro até à derrocada do antepenúltimo pedaço anteceder a do penúltimo, e essa, por sua vez, a do derradeiro. Instado a deixar aquele lugar de desespero, o homem terá respondido: "fico até ao fim, fico até ao princípio da minha vida nova".
Noutro local, andando as autoridades a garantir a evacuação das casas ainda só ameaçadas, depararam-se com uma casa estranhamente encerrada por inteiro ao mundo exterior. Um agente bateu a saber dos de dentro. Não recebeu resposta. Insistiu e obteve o mesmo nenhum resultado. Diz que foi instinto: arrombou a porta e entrou na casa escura. Lá dentro, nesse escuro nocturno, na cama do casal, a família inteira, pai, mãe e seus seis filhos: como quem finge dormir e apenas sonhar um pesadelo que cessará ao acordar. O agente ordenou-lhes que saíssem dali para fora, e sem demoras, a lava estava a metros! Mas qual, o pai, parecendo crer que assim protegeria os seus outros eus, envolveu com os seus braços nus mulher e filhos e mostrou-se determinado a quedar-se ali, e o que viesse, chegaria. O agente endureceu a sua ordem, terá inclusivé ameaçado precipitadamente de morte o pai da família; e por fim, com a lava a homem-e-meio de distância da primeira parede da habitação, lá os terá levado todos oito a sair dali para lugar seguro. Numa angústia profunda, o homem evacuado à força terá dito ao agente que a casa é a vida de um homem. E mais: "se ficarmos sem a casa, que é a vida? O que é a vida sem casa?"
O que é a vida sem casa?
Quando li esta pergunta, senti-te instantaneamente ao meu lado, dentro do meu peito, tu inteira à minha volta, céu, chão, cadeira, papel, coração e mãos. O que é a vida sem amor? O que é a vida? O que é a casa? O que é sentir um sítio, ou alguém, como tal e chamar-lhes, intimamente, 'casa'? O que será, tendo uma vida, tendo amor, tendo um sítio a que chamar casa, assistir impotentemente ao seu fim?
Frente à casa em derrocada irrevogável, o homem terá respondido: "fico até ao fim, fico até ao princípio da minha vida nova".

sexta-feira, julho 25

Do conflito israelo-palestiniano - observações avulsas

"Não é aceitável que um país seja ameaçado por rockets, mas é preciso que a resposta seja proporcionada. Seiscentos mortos é, evidentemente, algo que não se pode aceitar."
Laurent Fabius, MNE francês (DN, 23/07/14)

1 - Pegando no que disse Monsieur LF, algumas questões
A presente acção das forças militares israelitas é, rigorosamente, verdadeiramente, uma "resposta"?
O que é, num contexto como este, uma "resposta proporcionada"?
Até que número, em que quantidade, são os mortos aceitáveis? A partir de quantos passam a ser algo "evidentemente" inaceitável?

2 - "Barbaridade, s. f. acção própria de bárbaros; crueldade, desumanidade"
A presente intervenção militar do governo israelita é uma barbaridade. É injustificável e inadmissível.

Benjamin Netanyahu, PM israelita: "faremos o que for preciso para nos defendermos"; Ron Dermer, embaixador de Israel nos EUA: [os soldados israelitas] "deveriam receber o Prémio Nobel da Paz" [porque combatem o Hamas] "com uma contenção inimaginável" (DN, 23/07/14).

"A guerra justa que podemos fazer, segundo Santo Agostinho, é aquela que (...) defende o seu bando dos que injustamente o querem ofender, porque grande bem faz, diz ele, quem aos maus tira licença de fazer mal".
Fernão de Oliveira, Arte da Guerra do Mar (1555)

3 - Um hospital ou uma praia não se parecem com um túnel (normalmente)
A prática quotidiana da actual campanha militar israelita desmente implacavelmente todas as palavras dos seus responsáveis políticos & militares acerca das motivações e objectivos deste ataque.

4 - Dos mais de 700 palestinianos mortos até hoje (17.º dia), uma grande parte são crianças
"Eu não sou um rapaz mau. Não sou um rapaz mau. Sou soldado e o soldado não é mau só porque mata. Digo isto para mim porque um soldado tem que matar, matar, matar. Por isso, seu eu mato, estou apenas a fazer o que é certo".
Bestas de Lugar Nenhum, Uzodinma Iweala

5 - Distinguir o trigo do joio
"Nunca houve uma guerra prolongada com a qual algum país tenha beneficiado".
Sun Tzu, A Arte da Guerra (cerca de 500 a. C.)

É indispensável distinguir «país» (entendido como "povo") de «governo» (e «interesses»).

Entre os palestinianos, quantos não serão os que se sentem revoltados com o Hamas?
Morreram já mais de trinta soldados israelitas; como se sentirão os familiares e amigos desses homens?

(...)
Governo israelita pediu ontem mais 225 milhões de dólares ao governo norte-americano para reparar o escudo anti-míssil.
EUA anunciaram anteontem ajuda humanitária de 47 milhões de dólares destinada aos atingidos pela campanha israelita na Faixa de Gaza.
(...)

6 - Não existe tal coisa como "esforços diplomáticos da Comunidade Internacional" no sentido que por aí se lê
John Kerry, secretário de Estado norte-americano: "Estamos profundamente preocupados com as consequências do esforço legítimo e apropriado de Israel para se defender" (DN, 22/07/14).

Porque é que se tentou negociar um cessar-fogo que não incluía o fim do bloqueio (em vigor desde 2006) à Faixa de Gaza?

7 - Do lado de lá da insensibilidade
Chegam-nos, através dos jornais, relatos de famílias que se separam (mãe com filho, pai com filha) numa tentativa de aumentar a probabilidade de pelo menos uma parte da família sobreviver.

sexta-feira, agosto 23

Gareth Bale

Só uma parte do valor de transacção de um dado capital traduz o seu real valor no momento em que essa mesma transacção ocorre. Dos 100 milhões de euros que, aparentemente, o maior clube de futebol da capital espanhola está disposto a destinar para garantir os préstimos de Gareth Bale, só uma parte está vinculada ao seu verdadeiro valor. Uma grande fatia desses disparatados 100 milhões fica a dever-se, entre outras variantes, a pura especulação económica e a um certo vício de espectacularidade mediática que de há uns anos a esta parte tomou os gabinetes da direcção daquele emblema. Prosaicamente, Bale não justifica tamanho investimento. Neste ponto, é-me até quase inexplicável como raio é que se chegou a este número ridículo de 100 000 000.
Desde logo, pergunto-me o que motivará um jogador cujo trajecto num determinado clube seja tão concretamente positivo a desejar uma transferência. O que é que o move? Dir-me-ão, não sem uma certa sobranceria perante tão ingénua dúvida, que é o dinheiro. Mas Bale joga no Tottenham, um clube rico de um dos mais abastados campeonatos. Não se trata de melhorar as suas condições de vida, de garantir o futuro ou de proporcionar aos seus maiores confortos e segurança, uma vez que, à escala em que o mediático jogador gravita, o dinheiro será pouco mais que uma abstracção. Salário, naqueles píncaros, é certamente uma palavra sem grande tradução prática e quotidiana. Basta pensar nos avultados rendimentos que estes atletas obtêm de outras fontes, ou no acesso gratuito que, pelo seu estatuto e condição, têm a todos os luxos e prazeres que a sociedade soube criar. E por isso pergunto: pode alguém que viva já uma tal situação financeira e material desejar uma mudança por dinheiro? Provavelmente, sim. A inveja é uma paixão que move montanhas e não conhece limites.
Mas pergunto-me ainda o que fará Bale querer abandonar uma cidade que vive tão intensamente o futebol, abandonar um clube no qual poderia construir uma identidade, o qual poderia impulsionar a um novo patamar, no qual poderia marcar uma era, o qual poderia redefinir em função da sua participação. Numa palavra, um clube no qual poderia fazer história (dir-me-ão que fará, caso se concretize a venda; mas essa, para mim, vale pouco mais que nada). Mais: pergunto-me o que o fará querer sair daquele que é simplesmente o melhor de todos os campeonatos de futebol, onde o Jogo encontra a sua expressão máxima, aquele que é, boamente, o último reduto do Futebol. Irá antes atolar-se em Espanha, a mais sobrevalorizada liga do mundo, bicéfala e corrupta, muito receptiva a polémicas reles de arbitragem e a intrigas de balneário, servil para com os mais ricos e poderosos, publicada por um jornalismo de distrital e falha de lealdade dentro e fora dos relvados. Irá atascar-se no Real Madrid, paradigma actual do que não deve ser um clube de futebol.
Sem querer aparentar moralismos que na verdade não advogo, importa-me sobretudo a dimensão moral que um atleta, seja de que modalidade for, corporiza. Não me refiro ao dinheiro envolvido, muito menos a estilos de vida que os atletas possam assumir e que possam, empregando a fórmula consagrada, chocar e indignar uma sociedade em crise económica e financeira. Refiro-me, isso sim, à entrega à modalidade, quantitativa e qualitativamente; a como um praticante profissional pode nunca deixar de ser um amador no sentido mais belo da palavra; à - repito - identidade que, no caso vertente, um jogador pode construir num clube e numa cidade. O campeonato inglês é pródigo em casos desses, mas também em Itália são muitos e bons os exemplos de jogadores que, como soe dizer-se, vestem a camisola. Não sou da opinião que esta é uma visão romântica, ou apenas ingénua, de uma actividade tão desgraçadamente marcada pelos indizíveis dinheiros que gera e movimenta e em que os patrocínios, os interesses especulativos e os mediatismos de toda a sorte ocupam lugar de tão grande destaque. É o caso que só assim concebo a paixão do Jogo. Creio profundamente que é essa dimensão moral que distingue os maiores (também aqui não falo somente de futebol). Muito gostaria que um jogador com as qualidades físicas e técnicas de Bale não desertasse da Premier League. Mas ele tomou a sua escolha e, ao fim e ao cabo, o Jogo agradece. Há qualquer coisa de saneamento público de cada vez que um destes craques sai.

quarta-feira, julho 3

Alagoou-se o meu umbigo

Foi numa dessas tardes feitas de sal e sol. Perante meus olhos incrédulos, meu umbigo inventou-se lago. Casa só dum impossível botão, olho vazado de ciclope, enormizou-se de salgado lago de liliputianos. As nuvens negras de meus cabelos choveram as águas capturadas no mergulho que dera, do mergulho que dera vindas eram as águas que as negras nuvens dos cabelos meus descativaram e fizeram correr pelo vale terroso do peito, aqui e além detidas pelos afloramentos protuberantes dos mamilos, transbordantes ainda pelos grandes desfiladeiros dos flancos, confluentes finalmente no vaso nu do umbigo, pedaço d'água rodeado de terra por todos os lados. Um lago, indesmentível e duma vastidão plana e preguiçosa como só os lagos sabem ter, ali mesmo, no orifício que trago na barriga.
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Mas logo o sol desinventou todos esses arroios e ribeiros. Desinventou até o lago, despromoveu-o a umbigo. Resistaram somente, impressos a sal na argila de meu tronco, seus indecifráveis e precários rastos, prova mais que insuficiente do prodígio que hospedei.
Dele guardo agora somente estas palavras, miúdas e fugidias como grãos de areia.

terça-feira, julho 2

Manifesto

Na ressaca dos últimos desacontecimentos politológicos e partidográficos, eis que mil gargantas militarmente ensaiadas nos dizem a uma só multipla voz o que devemos pensar, o que devemos fazer, o que devemos dizer, tantas aparentadamente antagónicas, todas filhadaputamente autoritárias, legítimas, idóneas, paternais, todas como fossem ao fim e ao cabo apenas duas afiladas e requintadas presas de cobra de mato que nos envenenam os sangues, entravam os músculos, embebedam o discernimento.
Assistimos à demissão de gaspar, à saída de portas, à declaração de coelho, à reacção de seguro, ouvimos os comentários dos comentadores, as análises dos analistas, as políticas dos politólogos, as falas dos faladores de profissão, e de tudo isso emana um coerente e orquestrado fedor a merda. Um fedor que nos deixa exaustos. Um fedor nunca velho, nunca novo. Um fedor que traz em fundo uma gargalhada, gargalhada essa que promete assombrar-nos para sempre.
Este Grande Espectáculo da Realidade é vertebrado por uma dialéctica sem honra, sem moral, sem verdade, uma dialéctica tão absurda quanto lógica, tão estranha quanto íntima, uma dialéctica labiríntica, credível, totalitária, que nos conduz para onde nos quer ter, que nos ensina o que quer que saibamos, que nos diz o que quer que digamos.
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Ignoro quem sejamos, o que é na verdade a substância, a voz ou a geografia deste Nós vago e difuso. Pouco importa. Porque o que vem ganhando vulto em mim é irracional, não espera o entendimento alheio sob que forma for, não espera sequer a comunhão, a fraternidade, a pátria de um Nós sonhado e até presente na sua expressão. Não espera, aliás, nada. É talvez uma desesperança, um desapego incondicional, um estrangeirismo sem retorno.
Sou o meu último reduto. E quero só uma coisa: sangue.

terça-feira, junho 18

Da greve dos professores ao exame de Português dos 12.º anos (em parceria - não tão 'estreita' quanto eu desejaria - com a Rita)

Quando a opinião publicada, muito afoitada às roufenhas declarações dos sindicalistas profissionais, trata de propagar a ideia de que o ME deveria ter adiado o exame de Português dos décimos-segundos anos, então quaisquer hipóteses de tirar de debaixo dos escombros alguma lógica ainda com vida ficam boamente postas de lado. Mário Nogueira, cara da FENPROF e braço da Resistência do Bigode luso, desgraçadamente em agonia nos nossos escanhoados dias, defendia a requintada tese de que os acontecimentos de ontem, nomeadamente a apresentação por parte da tutela de uma nova data para os milhares de alunos que ficaram sem realizar o exame, eram prova de como estava ao alcance do ME desde logo remarcá-lo e, assim, "evitar a confusão nas escolas". A ideia é a tal ponto absurda, de tal maneira um contra-senso, que uma palavra me preenchia a mente à medida que os microfones da rádio me faziam chegar a voz do sindicalista: perversidade. E, note-se, em doses cavalares.
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Mais difusamente, transpirou pela comunicação social a ideia de que o ME foi "arrogante" e "inflexível" e que "deveria ter cedido". Resta saber a quê. Presume-se que a um reagendamento prévio. Ou antes seria, dado tratar-se de um protesto, às reivindicações dos grevistas, essas que são as parentes pobres destes merdiáticos fenómenos? A "confusão" que inundou as escolas foi obra da mesmíssima água que já de há dias alagara todo o país, insustentável edifício construído em leito de cheia.
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Alunos, escolas & universidades na sua dimensão institucional, o chamado «pessoal não-docente», e tantos outros directamente envolvidos não tiveram, por sua vez, tempo d'antena. Ninguém os ouviu. Com efeito, ninguém se ouve. Os jornalistas, autênticos guerrilheiros da notícia, fazem a pergunta e parecem nem ter tempo para ficar a ouvir a resposta. Sindicalistas e responsáveis ministeriais multiplicam-se em conferências de imprensa e em entrevistas escritas e cantadas muitomente desesclarecedoras, feitas em exclusivo, assim se me afigura, para as órbitas vítreas das grandes objectivas das câmaras de filmar, divindade maior da adoração destes praticantes, onde porventura se maravilham com o seu próprio reflexo.
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O conteúdo, mas, acima de tudo, a forma que as estruturas sindicais vão assumindo nas suas cada vez mais frequentes aparições públicas coloca-as em pé de perfeita igualdade com as ascorosas estruturas político-partidárias, que a demo-cracia de 74 pariu e gerou, e suas congéneres empresariais, multi e nacionais do proxenetismo e da agiotagem, alhures nas profundas dos pântanos viciosos do Poder.

sábado, junho 15

É perigoso, este sol

Foi enquanto ajeitava a rocha da cadeira da praia ao espaldar do invólucro de pele da espinha. O sol faíscava grosso no canto superior esquerdo da moldura do dia e eu sentia a carne salgada da face a querer encarquilhar. Foi enquanto me ajeitava para ler e me sabia encarquilhado de cara. O som indistinto que há largos minutos se encaracolava no pesado resfolegar da praia ganhou nitidez da mesma forma que ganham nitidez os contornos ásperos dos cactos dos canteiros do quintal da casa da minha mãe através da objectiva minuciosa da minha máquina fotográfica e então distingui a frase
- Este sol é perigoso.
Uma mulher e um homem mais novos, outra mulher e outro homem mais velhos e uma bebé desacasalada. A mulher mais nova e o par de velhos eram os vértices bicudos dum triângulo isósceles apontado à bebé, que lhes guinchava nos solavancos da areia as ordens torrenciais que, com a potência surda de uma mão biblíca, comandavam a cruzeta da marioneta de cada um. Donde me encontrava, por pouco não lhes surpreendia o rebrilhar sedoso dos fios pregados com pioneses sob a unha dos anelares, no píncaro do cocuruto, nalguma das peludas almôndegas dos dedos dos pés e, já ocultados pelas roupas de banho, no estuário do arroio lodoso d'entre-nádegas. Só o homem mais novo se apartava daquela geometria familiar, emigrado num escaleno só dele, de cotovelos soldados aos joelhos e as palmas salientes a arrebanhar quantidades obscenas de fiambre de bochechas de porco num repuxo de charcutaria que lhe cavava um par de crateras negras debaixo das sobrancelhas hirsutas, oitenta e cinco quilos plenos de tédio e quatro dias de uma eloquente barba. Impressionou-me especialmente como não se descalçava. Enfiado nuns calções de praia garridos e floridos que não tinha escolhido e num pólo azul-escuro que desencantara na gaveta do tempo de solteiro magro, parecia determinado a esperar ali mesmo, de sapatos-de-vela, pela Morte ou pelo Dia do Juízo Final. O que chegasse primeiro.
- É perigoso, este sol.
Travava-se uma batalha. O trio mais a oeste, numa histeria solene de feriado nacional, parecia regozijar com os guinchos tirânicos do rebento, que realmente era um amor. Nas suas costas, a nascente e num plano ligeiramente mais alto, o homem pálido, flácido e calçado fazia o que podia para desencaixar o maxilar superior com as alavancas de osso dos punhos. O homem mais velho desdramatizava
- Também estão estas nuvenzitas, filha, metemos o cremezinho à menina e pronto. Fazia-o dissimuladamente, diplomaticamente, temerosamente, de olhos baixos pespegados ao revestimento alvo e tenro dos cachos de chouriços das coxas da bebé. Uma leve tensão assomava à base da testa do homem dos sapatos-de-vela e eriçava-lhe quase imperceptivelmente o tufo negro do alpendre das sobrancelhas. À mulher mais nova, cuja cruzeta parecia mais folgada que as demais, numa subtil porém inequívoca hierarquia militar matriarcal que ora subalternizava, ora excomungava as marionetas da raça masculina (pois a mulher mais velha exibia ela própria, por sua vez, maior à-vontade que o diplomata), à mulher mais nova, dizia, bastou-lhe repetir uma terceira vez
- Mas é pe-ri-go-so,
sibilando a última sílaba e prolongando-a ameaçadoramente, deixando-a a pairar sobre o cenário de guerra como um polposo zeppelin movido não a ar quente, mas a vinagre a ferver, prestes a abater sobre o títere do maridinho uma salva de mil tiros das mil bocas dos mil canhões dos mil exércitos do Inferno da voz sonsa e nasalada das discussões ao deitar que invariavelmente precedem, num repentismo ensaiado, o apagar do candeeiro da mesa-de-cabeceira da cama de casal onde os sonhos, ajoelhados e de olhos vendados contra um muro de tijolo de burro, são, um por um, com a atroz crueldade das crianças, fuzilados por um infalível pelotão de palavras, silêncios e olhares venenosos.
- Eu vou ao carro, ouviu-se do meio do emaranhado de joelhos e cotovelos do homem calçado, eu vou ao carro buscar a tenda da menina. Só o homem mais velho o olhou de relance, mas logo disfarçou o gesto. Após um brevíssimo instante em que um vácuo impossível sugou todas as horas, todos os sons e todos os volumes do mundo, um guincho mais penetrante da bebé deu-lhe um puxão firme nos fios do crânio e do cóccix e içou-o como uma grua iça para o abate os carros sem préstimo.
- Queres que vá contigo, Nuno, perguntou-lhe com candura a mulher mais nova, enquanto de mindinho arrebitado ajeitava com esmero a pontinha da toalha. Não, cuspiu ele, a arrastar os sapatos-de-vela, perfeitamente acabrunhado, não sei se mais desesperado por ter de ir, se por saber que regressaria.

domingo, fevereiro 24

sábado, fevereiro 23

sexta-feira, fevereiro 22

sábado, janeiro 19

José tem dois euros e qualquer coisa no bolso. Traz da véspera um plano. De manhã, bem cedo, passo na praça a comprar fruta. Acordara orgulhoso da sua resolução. A ver se começo a comer mais frutinha, diz para consigo num alento matinal vigoroso, à medida que percorre as ruas de luz e calor da sua imaginação até ao seu café predilecto. Sentado, já com a bica a fumegar à sua frente, mira distraidamente a montra dos bolos. Vacila. De súbito, José fica suspenso numa imagem, numa memória: o apelo torturante de todas as montras de bolos de todas as pastelarias que cruzara desde que saíra de casa e que agora o seu subconsciente, sem misericórdia, derrama sobre os seus sentidos de forma irresistivelmente palpável. José hesita um momento mais. Não, não posso, senão tenho de ir levantar dinheiro para a fruta e esses 10€ voam-me que é um instante e como isto está não pode ser. As ruas da sua imaginação são violentamente tomadas por uma bruma espessa e gélida. A bica deixa-lhe um travo amargo no pensamento. José afunda-se num mar negro de tristeza e revolta, cheio de pena de si mesmo: um pobre coitado colocado perante o dilema psicofinanceiro - o quilograma de clementinas ou a bola-de-berlim?
Os dois minutos seguintes encontrá-lo-ão a amaldiçoar a meia-voz "os cabrões da troika e do Governo", os dentes cravados com gula na carne suculenta e açucarada da bola-com-creme.

domingo, janeiro 6

Rejeito a guerra. É empresa necessariamente temporária e não faz sentido construir algo senão para que dure para sempre. Falam-me de um homem que morreu no dia 23 de setembro de 1938, às quatro horas da madrugada, vésperas da Segunda Guerra Mundial. Morreu após um longo coma, os últimos anos a talhar chagas sangrentas nas nádegas à força do atrito com a maca, seu exosqueleto, sua segunda coluna vertebral (a válida), onde jazia imóvel e inútil desde 1917, mercê de um obus demasiado pesado e demasiado inevitável. “Com ideias como as tuas, para que lutaste?”, perguntaram-lhe, certa vez. E ele respondeu: “Para que seja a última guerra.” E foi. O preço a pagar aceitou-o no dia em que ouviu, através da janela, os gritos dos que sobreviveram. “Viva a Paz!” Para sempre. Negou a guerra. Negou-lhe a substância. Construiu, sobre ela, algo eterno. Morreu a tempo de morrer em paz consigo.