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Figas

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Parece que estamos a passar pela sexta vaga. Francamente, achava que já tinham sido mais. Mas é o que dizem e, em última análise, o que nos dizem é tudo o que temos. A vida não é senão o fogo-cruzado entre a narrativa que alguém nos conta, a percepção que a partir daí calha elaborarmos e, nos intervalos entre uma coisa e outra, a especulação em que nos gastamos. Portanto, se é a sexta vaga é a sexta vaga. Aliás, há até uma certa sincronização cósmica - porque é tempo também do sexto pacote de sanções à Rússia. Este acaso numérico só pode ser bom augúrio. Há, sem embargo, sinais contraditórios. De um lado, brada-se que Portugal "continua a vermelho", que os casos "são quase 45 vezes superiores" que há um ano, que a linhagem (?) BA.5 "já é dominante". De outro, que "o pico já terá passado" e que, portanto, o Governo não vai "endurecer medidas". Em que é que ficamos? Seja como for, não podemos passar sem notar que «endurecer medidas» é uma...

Caem as máscaras

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Não me espantaria que os telejornais do jantar desta sexta-feira chuvosa e fria e escura tivessem incluído nunca menos que um segmento de imagens onde pontuassem hordas de "jovens" em apinhada folia nocturna em que nove em cada dez - porque era esse o assunto da peça - se exibissem despidos de máscara. Imagino, do lado de cá do ecrã, uma massa de bons cristãos assistindo arrepiados, benzendo-se perante tal espectáculo, murmurando, entredentes, num misto de assombro e raiva, - Mas a pandemia ainda não acabou, repetindo-o mesmo - Mas a pandemia ainda não acabou, - Mas a pandemia ainda não acabou, - Mas a pandemia ainda não acabou, só não sabemos se o repetiriam em voz audível, se no segredo dos seus pensamentos, como não sabemos se o diriam por mera constatação de uma realidade relativamente objectiva, se por um inconfessável desejo - Que a pandemia não acabe, - Que a pandemia não acabe, quiçá expresso, aliás, num discurso directo donde transpirasse a familiaridade de dois anos...

A pandemia e a guerra nos canais de notícias 24-7. O trágico recuo da Empatia

Depois de dois anos inteiros de pandemia, três semanas inteiras de guerra. Esta interrompeu aquela, tomou-lhe o lugar de protagonista dos nossos quotidianos. A troca foi súbita e como que total: onde uma dominava, domina agora a outra; o espaço que uma, sozinha, preenchia, a outra o preenche agora, quase em exclusividade. Parece clara a correlação entre o silenciamento mediático da crise pandémica e o actual estardalhaço da guerra. Talvez não tivesse havido ainda uma suspensão tão duradoura e sobretudo tão efectiva da agenda pandémica enquanto facto diário como esta que a cobertura do conflito russo-ucraniano trouxe. Trata-se, nem seria preciso dizê-lo, de dois fenómenos perfeitamente distintos na sua substância. E, no entanto, no que toca ao discurso e à sua feição mediática, ficam na retina alguns paralelismos importantes.   O «agora» como valor absoluto Aquilo a que se chama a «informação televisiva» conheceu, com o advento e proliferação recentes dos canais especializad...

Inverno pandémico

- Oh, olá, nem te reconhecia! - Pois é, com isto das máscaras nem nos conhecemos. - Viste os números de hoje? Uns três mil setecentos e tal, não é brincadeira nenhuma. - Está a piorar imenso, sim. Mas as pessoas abusam, essa é que é a verdade... - Pois, pois é... - ...é discotecas, é jantares... - ...agem tipo «não se passa nada»... - ...não viste ontem no telejornal? - ...e não tarda está tudo fechado outra vez. - É ajuntamentos em tudo quanto é sítio. - Ai, enfim, a ver vamos que Natal temos. - Sim, a ver vamos. Estamos nas vésperas de um retrocesso àqueles dias de chumbo do pico da histeria pandémica. É um sentimento que ganha espessura, que se insinua e que, como uma gosma, se cola à pele. É, como o são as coisas gosmentas, nojento. Os signais aí estão para quem os queira valorizar: num encore mórbido, espécie de improviso ensaiado (porque aparentemente espontâneo, porque inequivocamente pré-programado), a co-presença voltou a ser, puramente, sinónimo de per...

Eu devia era ter apanhado desta omicron

Eu devia era ter apanhado desta omicron. A S. disse isto, sem tirar nem pôr: eu devia era ter apanhado desta omicron. Eu de início nem percebi. Mas, passado um bocado, aquilo caiu-me: mas como assim, devia era ter apanhado desta? Perguntei-lhe mesmo: mas olha lá, que conversa é essa do ‘devia era ter apanhado desta’? Eu nem queria acreditar. Ao que ela se vira pra mim e me diz: então, apanhei da outra e agora ‘tou sujeita a apanhar desta, e diz que esta é muito mais leve. E eu: mas tu passastes mal co’a outra, por acaso? Mas nisto entrou uma cliente e a conversa ficou-se por ali. Mas ‘tás a ver como as pessoas são? Porque ela andou o tempo todo roídinha de não ficar em teletrabalho, porque “toda a gente está menos nós” e renhonhó e renhonhó, e ela fartinha de saber que nós nunca poderíamos ir para teletrabalho, mas mesmo assim andou nisto este tempo todo. E tanto andou que acabou por apanhar e ficar uns dias em casa. Ela quando voltou ainda ‘tive vai-não-vai para lhe dizer que ela devi...

Os números COVID-19: ou latos em excesso, ou inconsistentes, ou pouco consolidados

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Foi noticiado, há cerca de uma semana, a trágica morte de uma criança de seis anos num hospital em Lisboa. A RTP titulou: "Morreu uma criança de 6 anos com teste positivo à covid-19" . Tanto quanto sei, e mau grado algumas notícias sobre a investigação levada a cabo pela PGR, não se apurou, até hoje, a causa da morte. E, no entanto, logo ficou nota de que este menino entrou na soma de óbitos da pandemia do novo coronavírus: a "quarta morte" na faixa etária dos 0-9 anos. Olhando ao boletim de ponto de situação da DGS desse dia , não é possível confirmar que foi essa a contabilização feita - a escala do gráfico da segunda página inviabiliza essa leitura. Mas, se bem me lembro, o critério de mortalidade em vigor durante o período de pandemia que Graça Freitas foi descrevendo logo nas primeiras semanas da crise pandémica era, em síntese, este mesmo: todos os óbitos com diagnóstico de infecção por SaRS-CoV-2 são registados como óbitos COVID-19. Dizia a notícia que "...

Pandemia, quase 2 anos de bizarrias várias. Começando pelo Desporto

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Vamos directos ao assunto: a pandemia (ou o que foram fazendo com ela) deu origem a inúmeras situações caricatas. Mil vezes me veio à cabeça o refrão daquela música do Gabriel, o Pensador, " É pra rir ou pra chorar? ". O que segue é, a propósito do «caso Djokovic» no Open da Austrália, uma selecção de alguns momentos desportivos simplesmente bizarros. 1. Liverpool celebra a conquista da Premier League Começo por esta porque, em rigor, «bizarria» não se lhe aplica. Será mais um caso «estranho». E mesmo isso será certamente discutível. Muitos me dirão que "Hoje é tudo assim". Essa objecção afigura-se-me, de antemão, legítima e, nesse sentido, ao meu «estranho» inicial somo um «sintomático». O caso não é que, como vai acima, um clube de futebol celebre uma conquista de uma liga; é que o fez para um estádio vazio como se estivesse com adeptos. Jordan Henderson, excelente capitão desta excelente equipa, ergueu o troféu mais desejado pelos clubes ingleses e exibiu-o -  em...

A recomendação prometida

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Eis que se anuncia a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos. Apurou-se, garantem-nos, que é seguro . Isso basta, parece: que não seja inseguro. Sobre a lógica na gestão e precedência de recursos ou quanto à prevenção efectiva de problemas sanitários, tudo se me afigura vago. Enfim, alguma coisa se há-de ganhar na protecção destas crianças e na protecção comunitária. Olhando, porém, a variáveis como a mortalidade e a doença grave (os dois maiores ganhos que vão sendo associados à vacina) ou mesmo a propagação viral desta população, não é fácil de, de um ponto de vista não-político-partidário, seguir esta dinâmica vacinal e sobretudo as crescentes restrições cívicas associadas à não-vacinação. Queiram aliviar os mil constrangimentos à vida escolar e já não terá sido em vão. De uma maneira ou de outra, estamos próximos já da vacinação universal, bem para lá de qualquer uma das marcas que nos foram sendo apresentadas para uma pretensa imunidade de grupo. Que, apesar de termos quase 90% d...

Stock para 2023, stock antes da autorização técnica & ainda a Omicron

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Acabo de ouvir na emissão da Sky News que o SNS do Reino Unido adquiriu já 114 milhões de doses junto da Pfizer e da Moderna. Para o próximo ano  e o seguinte . Soubemos a semana passada que o governo português tem já 300 mil doses a postos para o próximo dia 20 e que tem já contratadas com a Pfizer outras 460 mil a chegar a Janeiro, destinadas todas às crianças na faixa etária dos 5 aos 11 anos. Antes  sequer de haver qualquer luz verde para a sua administração. Ainda sobre o isolamento de toda a região sul de África em pretensa resposta à identificação de uma nova variante especialmente perigosa - é uma medida apontada por inúmeros especialistas como extemporânea e, mais do que isso, errada, com impactos seriíssimos em termos socias, económicos e mesmo civilizacionais. Não só, ao que se vai sabendo, havia já registo prévio de casos associados à Omicron fora de qualquer dos países daquela faixa sul-africana, como interditar ligações (sobretudo) aéreas é uma medida gritantemen...

Omicron, o Super-Mutante

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Foi sábado passado, há tão somente 4 dias, que a OMS baptizou mais uma nova variante do não-tão-novo coronavírus, identificada pela primeira vez na África do Sul. E logo o Hemisfério Norte isolou profilaticamente todo o sul de África. É um pedaço de absurdo que rivaliza em tamanho com a Muralha da China. E que, como ela, se avista do espaço, como fica claro na imagem de satélite que segue. Passar para cá do risco vermelho ou fazer, à direita e à esquerda, a travessia oceânica, tornou-se literalmente da noite para o dia uma quase-impossibilidade. Do pouco que restou depois de decretados novos fechos de fronteiras (Israel, Japão) e posto em marcha o corte abrupto das ligações com aquele conjunto de países (quase todos os países europeus, Brasil, Austrália, Angola, vários outros), avulta o reforço das restrições às chegadas. Entre exigências cumulativas de certificados de vacinação, testes negativos (à partida, à chegada, em dias consecutivos após a chegada, o diabo a sete) e isolamentos ...