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Diário de um índio: puta que pariu as vuvuzelas

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Cada Estado tem as suas manhas para incutir nos governados um morno e artificial sentimento de pertença e coesão nacional, coisa muito porreira quando o que se pretende é fazer esquecer que as desigualdades socias estão aí vivinhas da silva e prontas para durar (a este propósito, vide entrada anterior ). Com efeito, na lógica político-partidária das democracias amodernadas, um governo terá tanto mais sucesso quanto mais profundamente conheça o fraco dos seus eleitores. No que concerne às manhas lusas, o decreto-lei do Governo da República - em melodiosa harmonia com a histórica subtileza portuguesa - ordena que se bufe numa corneta cor-de-laranja. A grei obedece, num arroubo de patriotismo cada vez mais frenético. Contra o tradicional bota-abaixismo português, a massa responde com «energia positiva». Perfeitamente alheia a todo este movimento, e assistindo a tudo muito bem instalada no camarote presidencial, uma gasolineira esfrega as mãos de contente. Mas há que dar o braço a torcer:...

Na volta, vai-se a ver e não exagerei

Há vezes que, relendo o que por aqui escrevinho (vendo-me de fora), me julgo exagerado, ou tipo radicalóide. Esta coisa do «Diário de um índio» que entretanto arranjei elenca invariavelmente nessa categoria do exagero. Diria que é a própria linha que imaginei para o «Diário» que gera um tipo de discurso muito simplificador e abrupto, impressão aguçada pelo tamanho relativamente curto das entradas. Mas adiante. Um dos textos em que mais achei exagerar foi o "Diário de um índio: um país aos chutos nos novos Descobrimentos por terras africanas" , onde falava de uma certa analogia entre os tratamentos e arranjos políticos e históricos (ou jornalísticos) dados aos Descobrimentos e à Selecção AA. Dito assim, há que convir que é, no mínimo, rebuscado. No entanto, hoje vi a publicidade da SIC que anuncia o acompanhamento que aquela estação irá fazer do Campeonato Mundial. E então pensei, divertido: na volta, vai-se a ver e não exagerei .

Diário de um índio: diante da Bertrand do CC Vasco da Gama

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Em última análise, mercados há só um (bem entendido, ordenado há também somente um) e todas as mercadorias têm em todas as outras as suas concorrentes directas (o que sem embargo não nega a lógica de mercados específicos para compradores específicos). É portanto sensato não esperar demasiado de lojas de livros e de música sitas em centros comerciais, uma vez que estas, não obstante a sua, por assim dizer, índole artística (mas nem por isso menos capitalizada, é bom que se diga), partilham um mesmo tecto com as cadeias de moda (apreciável locução), com as grandes lojas de electrodomésticos & tralha tecnológica diversa e, para atalhar, com tudo quanto há na praça do reino da quinquilharia e pechisbeque. Os ditâmes do negócio são claros como um urso polar e, para os que os tomam como naturais (já nem digo certos) e os seguem (ou vivem a tentar), não existe alternativa à massificação e infantilização do objecto a vender, seja ele qual for (já que o fim é o mesmo), o que, retomando o ...

Diário de um índio: armem por favor as armas do Amor

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Os vários sistemas políticos diferem, tanto quanto é possível vislumbrar cá de baixo, somente no meio de legitimar a governação de todo um Povo por um limitado número de indivíduos. Neste quadro, motes como o bem-comum, o desenvolvimento artístico ou a responsabilidade individual são - vade retro - convenientemente ignorados. Quanto ao mais, e contando as necessárias mudanças de cenário e banda-sonora, os diferentes sistemas são pouco menos que a mesmíssima bosta de cavalo. A título de exemplo, considerem-se os seus alicerces, todos eles interdependentes: desigualdade de oportunidades (no acesso ao Conhecimento e à Justiça), condicionamento dos comportamentos (através do Ensino Público e da Televisão), trabalho assalariado (na sua vertente de controlo do Quotidiano e do Consumo) e sobrepopulação (trave-mestra e garante de toda a Desigualdade).

Diário de um índio: um país aos chutos nos novos Descobrimentos por terras africanas

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Necessidade tanto mais premente quanto maior for o "cenário de crise" (usando a expressão consagrada), a criação governamental de uma imagem de coesão nacional no imaginário colectivo tem ultimamente recaído quase em exclusivo sobre os ombros da estafada equipa de futebol Selecção Nacional. Por seu turno, o patrocínio multifacetado e a jorros das acções desportivas e mediáticas desta equipa escuda-se e fundamenta-se no patriotismo que, em paralelo, fomenta. O que, convenhamos, requer uma notável habilidade. Este investimento público num chauvinismo conveniente ao aligeirar das tensões geradas pelos descarados desiquilíbrios sociais (que essa mesma fonte agracia com o seu perdão e bênção), revela-se igualmente frutífero em termos estritamente comerciais. Bancos, cadeias de hipermercados, empresas de redes de telemóveis e de cervejas, só para citar as mais histéricas, mamam nesta farta teta ávida e sabiamente. E, no entanto, tudo é leve.

Diário de um índio: as imagens com que nos traduzem o mundo

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Tal como a chamada «literatura de mercado», o conteúdo dos jornais de distribuição gratuita assenta, sem qualquer pudor, nos mais folclóricos estereótipos. Esta via permite reduzir sobremaneira o tamanho das notícias - condição dourada para o estrondoso sucesso comercial destes diários - uma vez que os códigos sociais e os preconceitos dispensam quase totalmente uma contextualização jornalística. Especialmente apreciável é o documento que esta abordagem redactorial-comercial gera: são infinitas páginas tratando a sociedade, a moral e o dinheiro recorrendo a códigos, dessassombradamente datadas e plenas de uma honestidade que nenhum manual de História quer, pode ou consegue registar. Um outro aspecto: mesmo não alinhando na construção e manutenção destes estereótipos, mesmo se os rejeitar um por um, qualquer cidadão-anónimo será capaz de os entender.

Diário de um índio: a liberdade que prende

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A Liberdade de Expressão é um documento político de difícil interpretação. Ao que é dado ver, e tendo como bitola a expressão ela própria no seu sentido literal, decretou-se a liberdade de expressão após haver-se garantido a sua perfeita ineficácia. Isso ter-se-á alcançado (e perpetuado) por via de outros instrumentos político-partidários, como a demografia, o ordenamento do território e a lei-geral do trabalho. Neste âmbito, o caso do Direito à Manifestação dos trabalhadores é especialmente interessante, na medida em que a expressão livre do seu descontentamento não é apenas ineficaz: é, atalhando, contrária e prejudicial aos seus intentos.

Diário de um índio: notícias não acontecem, fazem-se

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É frequente e passa incólume a (sobretudo) transmissão televisiva de acontecimentos e estórias em espaços noticiosos cujo carácter mais os qualificaria para outros programas, designadamente de entretenimento. Isto é dizer que há "notícias" que não são notícias. Ou melhor, são "notícias" meramente por serem apresentadas com esse nome ou no âmbito de programas de notícias. Esta constatação afigura-se-me relevante pelo seu inverso. A saber: se um acontecimento não for televisionado não é notícia - independentemente da sua importância pública. Tal relação e dinâmica não passará certamente despercebida aos olhos dos mandantes.

Diário de um índio: o trabalho de consumir(-se)

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Mais que um meio de obtenção de alimento e agasalho, o trabalho parece servir um outro fim dos que, trabalhando, lhe obedecem: o incremento gradual e pautado do arcaboiço de consumo. Em termos relativos, isto significa igualmente que a própria capacidade de consumo (o fim) jamais se vê incrementada. Pois ao maior músculo dinheiral sempre corresponde um maior halter de consumo. A lógica designada por progressão na carreira oculta, nessa nomenclatura, uma ordenada e obedecida progressão no consumo. Sem exageros poéticos, dir-se-ia que do trabalhador ele próprio.

Diário de um índio: popular felicidade pateta

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Sem que alguém lhes dê essa ordem, os artistas (em especial músicos e escritores) proclamam a felicidade das mais variadas sortes. À falta, porém, de algo real a que reportar, esses artistas (que não são todos, apenas os mais populares) optam pela expressão e expansão da patetice. Dizer felicidade torna-se, destarte, coisa armadilhada. A popularidade que sem embargo (ou justamente por isso) angariam constitui-se como a motivação primordial e a justificação derradeira da sua acção.