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Fragmentos VI

(...) Importa escrever, sem dúvida. Registar, imprimir, gravar, chama-lhe o que bem queiras. Nunca será obra acabada, nunca será imaculado, nunca será satisfatório - muito menos para ti próprio. Mas representa o momento em que o teu pensamento deixa de ser aquela nuvem difusa e, até para ti, semi-desconhecida - porque permanentemente mutável, imaterial - e se concretiza, ganha corpo e assume uma forma, uma primeira forma, que constitui uma base de observação, análise e avaliação, onde poderás voltar as vezes que forem precisas, que podes reler, riscar, reescrever - e, assim queira o deus que dizes ser teu, melhorar. Será sempre uma barreira só parcialmente ultrapassada, um percurso só aparentemente vencido. Aliás, as palavras dar-te-ão repetidamente a ilusão de que as dominaste - até à segunda leitura, quando te atiram em cara que o teu pensamento nunca será devidamente expressado: por incapacidade tua, por defeito do molde que usas, por tanta coisa, enfim. E, assim sendo, o teu pensam...

Fragmentos XIX

(...) O amor só se completa depois que a relação estatutária e socialmente consagrada como sua mais idónea concretização se consuma e, sobretudo, se fina, e não é justamente no momento do seu término, não senhor, leva tempo, quanto, ao certo, não sei, é conforme cada qual, mas estou certo disto que te digo, e mais te digo, aqui entre nós que ninguém nos ouve, se é certo que o amor traz felicidade, e parece, com efeito, ser isso que o amor traz, eis tudo porque não sou feliz. Ele dizia-me isto com um sorriso murcho que parecia realmente querer disfarçar a sua profunda tristeza (ou seria frustração?). Parecia, também, desforrar-se (como se dum jogo se tratasse) por ter tão completa consciência do porquê e como daquela eterna ruga que lhe marcava o rosto e a fisionomia. De resto, tudo tinha para, seguindo a sua teoria, “completar” o amor e ser, assim, feliz: bastava-lhe tão-só pôr cobro à relação que tinha, nada mais simples. Mas e a dor?, murmurava ele com o olhar fixo no nada. Ora, é o ...

Fragmentos IV

(...) A maioria absolutista, apresentada amiúde como fenómeno de estabilidade e legitimidade duma governação democrática, indiferentemente dos seus resultados práticos, é só mais um caso, rapaz. Vejamos, por instantes, o caso do «não» irlandês: enfim, não fez, com efeito, História, daquela d´H grande, mas, porventura até por isso, importa sobremaneira destacá-la: é que a opinião publicada foi desfavorável, de-cla-ra-da-men-te desfavorável. O rumor que se fez ouvir foi de impaciência pla impertinência da coisa, plo imbróglio criado, "após anos de, sic, defíceis e complexas negociações". Agora, de quando em vez, lá algum Lobo manda uma acha para a fogueira onde nos querem queimar, e alguns há que lhe passam Cavaco. Talvez que isso seja, em certa medida, um reforço do que te venho dizendo. Certo dia li que a democracia, presente hoje, futuro à época, se encruzilharia inapelavelmente nas questiúnculas partidárias e seus interesses mesquinhentos, e que, em virtude disso, o interes...