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A beleza muda do gostar

Quando aqui chegaram aqueles dois o sol esquentava estas mesas e estas cadeiras debaixo deste telheiro de madeira que prolonga esplanadamente o telhado deste café onde sempre se ouve atirada da rádio música de duas pequenas colunas dependuradas acima da vista e onde, como em regra acontece nos assuntos vários da vida, nem todas as cadeiras e mesas são fornecidas da mesma fortuna, no caso o conchego morno e luminoso deste astro magnífico que pouco se importa se é já outubro entrado ou se os palradores de cá de baixo lhe destinam expressões tão atrozes quanto sol fora de época. Nem todos os assentos estavam banhados pelo calor solar e foi por isso que estes dois não se sentaram cada qual em seu lugar assim que chegaram, antes ficaram de pé diante da mesa escolhida a travarem-se de razões em empurrões de mãos e trejeitos de beiços mimosos e praticamente ridículos, estava a cadeira do lado de dentro na sombra e a da ponta ao sol, aquela num vão escuro e f...

Telegrama 048

048 Desde há onze longos anos que este dia deixou de ser apenas mais um dia.

Quarta-feira

Subo já daqui directo a algum sítio. Qualquer. Para que, vendo-me por fora, fiquemos a pensar que sei para onde caralho vou, para onde caralho quero ir. Não parar. Não abrandar. Como tivesse ond’ir. E horas. Uma finalidade. Mesmo que mentirosa. . Minha caligrafia não é minha, mas de minhas mãos. Minhas mãos não são minhas, mas de meus braços. Meus braços não são meus, mas de meu tronco. Meu tronco não é meu, mas de meu corpo. Meu corpo não é meu, mas dos outros. . A matéria disposta como pretensa denúnica, o estilo urbanizado, populoso, como jorro de porcas  & parafusos, um escrever palavroso, adolescente. Começa assim. Depois muda. Muda o conteúdo, o outfit, o layout, a maquilhagem. Caem as coisas complicadas; prevalecem as simples. Como o amor ou a felicidade. Não há aqui espaço à ironia. A ironia não ocupa espaço, como se diz do saber. A ironia é o espaço, a sala-de-estar, o cosmos, o útero. A ironia é tudo e então não lhe reservo espaço: onde já se ...

Estas meninas gordas

São estas meninas gordas que inspiram o amor aos meninos normais. Não à tona dos olhos ou à superfície dos dedos, mas no fundo mais fundo e inacessível do peito, e por dentro do sexo, por trás do esperma. São elas porque talvez estas meninas gordas gozam da liberdade fornecida pela gordice: o falhanço antes mesmo da tentativa. Nada a perder: tudo já perderam. Os meninos normais ouvem muito estas meninas gordas e esquecem-se das roupas, dos factos e dos pequenos futuros. Fixam-se somentemente nos lábios doces e ricos destas meninas: no seu desenho, no seu molhado, na sua promessa. Estas meninas gordas não sabem amar. Subvivem só das fatias de tempo que a custo vão debicando dos meninos normais. Não sabem amar: desconseguem de acreditar que um menino as pode normalmente amar.

O burro e o cigano

1 Atou o cigano à sebe o burro. Aceita o burro o baraço à sebe. Compreende o burro o procedimento: ele que não quer fugir, ele que não quer estar preso. Aproxima-se o filho do cigano da sebe. Fastia-se o filho do cigano do nada do sítio. Pegou a chibata do burro do pai da carroça. Chibatou o lombo do burro do fastio do nada do sítio. Outra vez. Outra vez. Outra vez. Outravezou o ciganito a chibatada ao lombo do burro. 2 Foge o burro do desfastio do filho do cigano. Berra o ciganito o burro! o burro! o burro! Persegue o cigano o burro. Apanha o cigano o burro. Ata o cigano à sebe o burro. Castiga o cigano à chibatada o lombo do burro da intentona. Outra vez. Outra vez. Outra vez. O burro. Ao Rui, que me contou esta estória.

Crónica futebolística

O meu clube venceu a meia-final. O outro clube ficou-se de meio-finalista vencido. O árbitro não fez amigos novos, mau grado tanto hand-shake antes e depois da partida. A bola foi pisada, chutada, socada, cabeceada. A bola foi malapatada. A relva rasgou-se em torrões de areia. Jogadores houve que se amachucaram, em número de três, encaminhados para a linha lateral para darem a vez a outros que os aguardavam ansiosos. Dos que se avariaram, um, da formação rival, mostrou-se deveras contrariado. Urrou com as artérias do pescoço enfunadas e esmurrou o relvado num salpico de areia, todo o tempo envolto numa mudez bidimensional de ecrã de televisão. Outro escavacou-se na bacia e quedou-se como destroço no chão, mas ninguém se mostrou impressionado, tanto mais que os poucos que se foram achegando ao desgraçado o fizeram no exclusivo intuito de esticar o braço ao saco do massagista, donde não paravam de brotar garrafas de água. Saiu o desembaciado já anónimo, escondido por repetições de chuto...

La crisis: resegna estórica

Um grande bando de grandes fideputas peculatou o tesoiro da mátria em acto da mais reles banditagem. Cenário de banca rota: o oiro caiu muito plo buraco. Os cujos inda se afadigaram a disfarçar o roto do seu carácter com remendigagens várias, das costumeiras às exóticas, das estrangeiras às patrióticas. Pois merda. O mal estava feito e, benza-os deus, muito bem feito. Competência para a incompetência. Procedeu-se então, em sede de co-omissão para lamentar, à industriosa descrição do mui surpreendente! rombo do casco do baú da nau do inacional tesooiro, seus quandos, porquês & entãos. Heroicamente, cabalmente, sinteticamente, diagnosticou-se o mal de que afinal padeciam as finanças públicas: contágio interintencional, vírus daquém e dalém-mare, coisa muito globalizada e pós-moderna e, sobre o mais, inevitável, pelo que, remataram os dinheirologistas, toca-a-todos e porttugale não é excepção. Entrelinhamente, inocentava-se destarte o grande bando de grandes fideputas de responsabili...