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Lembro-me que

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O último número da Ler tem na capa, no canto superior direito, o seguinte aviso: NÃO FALAMOS DE CORONAVÍRUS. Percebo-lhes o sentido e a graça e toma-me por instantes um certo sentimento de comunhão. De facto, nos dias que correm, não se fala de outra coisa. E «falar» é o verbo certo. Bem entendido, pouco se conversa sobre este tópico. «Conversar», no caso vertente, pretende remeter para uma dinâmica moral e intelectualmente honesta de reflexão, de contraditório, de partilha. A dinâmica corona-virulística não é, objectivamente, essa. A reflexão é escassa e afectada, o contraditório idem . A partilha de ideias e vivências, essa, simplesmente não tem lugar. Literalmente, não tem lugar . O tema presta-se a polarizações. É complexo – e não há tempo nem paciência para analisar e conversar acerca de temas complexos. Pertence a um domínio técnico que poucos dominam – e portanto muitos conceitos-base são mal compreendidos. Foi açambarcado pelos media , que viram nisto uma tábua-de-salvação d...

Catástrofe

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Understatement do ano: dizer que esta crise pandémica trouxe consigo coisas inéditas. Um exemplo de uma dessas coisas, para memória futura: polícia prende violentamente uma jovem mulher por esta não usar máscara na via pública. Isto passou-se em Melbourne, onde desde o passado dia 5 as autoridades decretaram uma quarentena de seis semanas com recolher obrigatório entre as 20h e as 5h. Decretaram ainda o encerramento de lojas e fábricas, a paragem da construção civil e a suspensão do ensino presencial. Os cinco milhões de habitantes desta cidade estão obrigados a permanecer sempre em casa, excepto para trabalhar, procurar ou providenciar ajuda médica, fazer exercício físico ou passear os cães. Segundo o Público (edição de 4/08), que cita um jornal local, "exceptuando os motivos profissionais, todas as saídas de casa estão limitadas a um período máximo de uma hora e dentro de um perímetro de cinco quilómetros em redor da habitação". Como se percebe pelas imagens, o uso de másca...

Nova entrada de diário

Reli há pouco o que escrevi a 21 de Junho. "Como é que vamos sair disto?", questionava. A pergunta mantém-se viva, latejante, em mim. Como é que vamos sair disto? Que sociedade, que ordem? Que marcas, que transformações? Pouco tenho a acrescentar ao que escrevi. Estamos a chegar ao final da primeira semana de Agosto e, se alguma coisa há que me fique na retina, é que aquele texto me parece hoje muito menos assustadiço do que então me pareceu. Estar afectado assim como estou é talvez uma manifestação de lucidez, mais que de uma especial sensibilidade. Enfim, digo isto para me convencer, para me apaziguar. Porque é muito, muito chato (a palavra que me vem sempre à cabeça é «chato») manifestar a minha posição, a minha visão de tudo isto. É-me penoso («penoso» diz melhor) sustentar a posição que assumi. Aborreço os outros e desgasto-me a mim. Tanto que, de há umas semanas a esta parte, mal o faço. Seja como for, fala-se cada vez menos acerca deste corona-vírus (há pouco mais dois...
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♜ O marido veio dar com ela a cismar sobre os tachos do almoço. - Olha que isso está a querer levantar fervura. Arrancada ao seu alheamento, a boa esposa atarantou-se e deixou cair a colher de pau ao chão. Dobrou-se ela mesma para a apanhar e fungou duas vezes sem dizer palavra. - Que é que tu tens, mulher? Isso está a pontos de deitar por fora. Ela baixou o lume às batatas e, enquanto limpava as mãos ao avental, atirou-lhe: - Tens de ir marcar o do primeiro-esquerdo. O marido teve um sobressalto. Sentou-se lentamente e esteve um momento em silêncio a barrar a manteiga no pão. Ruminava. Finalmente, murmurou: - O do primeiro-esquerdo? - O do primeiro-esquerdo. O homem equilibrou cuidadosamente a faca sobre o pacote da manteiga e ali deixou o olhar pousado enquanto digeria aquela informação. Acabou por dizer, como quem pensa alto: - Achamos sempre que estas coisas só acontecem aos outros. A mulher deixou bruscamente o fogão e sentou-se à frente dele. - Já vis...

Entrada de diário

Um mês passado sobre o início do desconfinamento, pergunto-me: como é que vamos sair disto? Quem, enquanto comunidade, depois de tudo isto, seremos? Que nova feição assumirá a nossa sociedade? Quando, nos idos de Março, as coisas se precipitaram no sentido do fecho-de-tudo, ninguém pensou no pós-confinamento. A esta distância, dir-se-ia mesmo: ninguém pensou, ponto final. Este «ninguém» implica, desde logo, os responsáveis políticos. Mas, mais vivas, vêm-me ao pensamento todas as pessoas. Todas as pessoas, isto é, todos nós. Dir-me-ão - E que é que poderíamos então ter pensado que agora fizesse alguma diferença? Nada, claro. E, no entanto, a decisão política teve claramente, inequivocamente, uma origem popular. Houve, como talvez nunca tenha havido antes, uma pressão pública para que medidas drásticas fossem tomadas. Muito mais do que os chamados responsáveis políticos, interessam-me os responsáveis anónimos. O ímpeto de fazer-o-que-for-preciso para combater um problema de sa...
♞ Dois cidadãos trajados em tons pardos dialogam com gravidade numa esquina do grande terreiro da vila. Têm os olhares postos numas grandes árvores que há do outro lado da estrada. - Aquele. - O da mesa da ponta, de t-shirt amarela? - Esse. Um deles tira um maço de tabaco do bolso interior do casaco. Servem-se cada um de um cigarro e põem-se a fumar. Fazem-no com uma pachorra calculada. Parecem olhar o monumento aos mortos em combate. - Eu não te disse? - Tens razão. Tem mesmo cara de assintomático. - Eu disse-te. Demoram-se nas últimas baforadas. Deitam as pontas ao chão, pisam-nas demoradamente. Fazem-se um levíssimo aceno e começam a caminhar na direcção da esplanada. Dirigem-se à mesa da ponta e interpelam um tipo de t-shirt amarela absorto na leitura de um livro usado. - Importa-se de nos acompanhar? Olham-no do alto, com insistência. O tipo da t-shirt parece não compreender. Após um instante de silêncio, repetem: - Importa-se de nos acompanhar? O tipo ...