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Uma peste mediática

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Reli recentemente A Peste , de Camus. Impulsos epocais, enfim. Seja como for, não foi tempo perdido; reler é uma virtude e um prazer e A Peste é uma narrativa extraordinária. Parece-me relativamente inevitável identificar ali uma série de lógicas e acontecimentos que marcaram o nosso quotidiano nos últimos 500 dias, mais coisa menos coisa. Duas coisas há, contudo, que separam a narrativa camuniana da narrativa covidiana. “Duas” – escusado será dizer que não são só duas. Mas estas duas parecem-me capitais, sobretudo para compreendermos o último ano e meio que vivemos (até porque dificilmente acrescentarão o que quer que seja à leitura do texto de Camus). São elas as doenças propriamente ditas e os media . A Peste (spoiler alert) narra um evento de peste. “A” peste. Assustadoramente fulminante, letal, horrivelmente dolorosa, símbolo absoluto da Morte. A COVID-19 é, numa palavra, nada disto. A narrativa de Camus não contempla os media . O lado socio-comunicacional da epidemia é, no m...

Estilo, penetração, candidez

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Cruzei-me na rua com um cidadão que flanava nestes preparos: Apanhado desprevenido por tamanha concentração de estilo, não desolhei logo. Ele mirou-me de volta. Parecia perguntar: - Que é? Havia uma sentença nessa remirada: - Não é multado quem usa mal. É quem não usa. Ponderei falar-lhe do ponto 1 do artigo 3.º da Lei n.º 62-A/2020, de 27 de Outubro de 2020. Mas deixei-me estar quieto. Nunca nada de bom se segue a citarmos legislação. Adiante, à esquina, três anciãos debatiam os números do dia. Atirou um, assim como quem não quer a coisa: - De ontem para hoje, mais treuze. Já faz trazentos e oitenta e um. Mas outro, logo a altear a voz, corrigiu: - Qual quê! Trazentos e oitenta e três, pá, três-oito-três, que eu ainda ao almoço vi isso. O primeiro, dando um jeito à máscara, fez-se de desentendido. Seguiu escarafunchando o ecrã do smartphone com o indicador. - Diz que desde Março que não tínhamos cá tantos no concelho. Ainda o homem não acabara o “tínhamos” e ...

A primeira vez. A hiper-conectividade pandémica

I 13 de Julho de 2021, terça-feira, aprox. 22h: assisti à primeira crítica aberta, cerrada, sem disclaimers, não a decisões isoladas ou estratégicas do Governo, da DGS ou dalgum responsável público, mas ao fundamento da crise pandémica: a cultura do Medo, a desproporção das medidas e seus perigos, o controlo da agenda governativa e mediática, a tunnel vision. Foi José Miguel Júdice, na SIC Notícias. Foi, bem entendido, a primeira a que eu assisti. Mas eu vejo muito pouca televisão. Reparei que cometeu o mesmo erro que eu e fundou grandemente a argumentação em números. Mas, enfim, aquele cavalheiro é grisalho, usa três nomes como quem usa gravata (que também usa) e fala na televisão. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Foram precisos dezasseis meses inteiros - mas aconteceu. Ouvi-o num misto de espanto e desilusão. Criticar abertamente o que se tem vivido (repito: não é dizer que esta ou aquela medida são tontas porque "vêm tarde" ou que "tem havido falhas...

O novo coronavír... quer dizer, o novo presidente do Benfica

O noticiário da SIC abriu assim: Rui Costa é o novo presidente do Benfica. Rodrigo Guedes de Carvalho imprimiu à coisa aquela nota pausadamente melodramática que tem vindo a aprimorar nos últimos tempos. De forma grave, com a voz grave. Números redondos, dos primeiros 50 minutos do telejornal, uns bons 40 foram dedicados a este assunto. Às tantas, fez-se um directo. No centro do ecrã, num encarnado impecável, fitando-nos de esguelha, um palanque. Em fundo, o relvado do Estádio da Luz, vazio e melancólico. Rui Costa apareceria, dizia Rodrigo, "a qualquer momento" - para falar à "nação benfiquista". Foi tenso. Em voz-off, o pivot e um comentador de futebol enchiam um chouriço ou dois, para matar o tempo. E o palanque ali, cada vez mais vermelho. Um minuto mais, sessenta segundos inteiros. Isto em televisão é mais. Mas o eterno camisola 10 lá apareceu, vindo do canto esquerdo da televisão. Não sei bem se flectiu, se basculou - a gíria futebolística tem que se lhe diga ...

Alandroal no Vermelho

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Quando, aqui há dias, tivemos o recamado privilégio de assistir nas televisões à apresentação da avaliação governamental prévia ao arranque da chamada Segunda Fase do Plano de Desconfinamento, não pudemos certamente deixar de estranhar a curiosa lista de «Concelhos em Risco» que resultou da dita douta avaliação. Isso deu-se por aquela altura da comunicação em que a mal reprimida revolta contra aquele pausado e grave paternalismo de ir ao cu ao passarinho que o nosso Primeiro tem vindo nos últimos meses a aprimorar nos ia já levando a interromper-lhe o solilóquio a cada nova sentença – quando ouvimos, numa altura em que um diapositivo anunciava os lugares perigosa e irresponsavelmente entre o Amarelo e o Vermelho do tenebroso gráficozinho quadrado que Costa brande de dedo em riste há coisa de quinze dias ou três semanas, a palavra «Alandroal». Alandroal...? O Alandroal estava, ficámos a saber, em risco . “Se daqui a quinze dias não corrigir a mão, o Alandroalzinho fica impedidozinho...

Irrompem os carrilhões

Irrompem os carrilhões. Assim – “irrompem”. Sem aviso. Como uma torrente rasgando este silêncio morno de Domingo à tarde. Uma onomatopeia vinha talvez a calhar, mas nunca – Vuu-uhh-uum – foram bem a minha praia. A sala do carrilhonista fica (acho eu) na base da torre Sul, à direita de quem encara a fachada principal do Convento. O conjunto da torre Norte é – não me lembra bem o porquê, mas sei que já ouvi contar – tosco, abrutalhado, e não permite os mesmos virtuosismos melódicos. Dará, quando muito, para chamar à missa ou tocar os finados – em alta grita. Seja como for, o homem lá está, neste instante, naquele alto ermo, rodeado de toquinhos de madeira e de ferro, onde zurze com afinco (Abel; estou que se chama Abel, o carrilhonista-mor; não me recorda já o apelido), presos a grandes cabos que sobem às alturas semi-divinas dos mil sinos e sininhos joaninos (diz que cada um tem um nome; há-de certamente ser pela proximidade à pia baptismal, pela relação próxima com os ministros do Senh...

Das moratórias

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♣ O Banco de Portugal publicou ontem mais alguns números relativos às moratórias concedidas no contexto da crise pandémica. Tudo somado, estão em causa sensivelmente 45 mil milhões de euros. As empresas assumem pouco mais de metade deste bolo: 24 mil milhões de euros. Este valor corresponde, números redondos, a 33% de todos os empréstimos concedidos a estes agentes económicos. Sem surpresa, os estabelecimentos de alojamento e restauração são o segmento de actividade que mais recorreu a este mecanismo de emergência: mais de 56% pediu a suspensão das suas obrigações. Olhando ao caso das PME - que, em 2018, segundo a PORDATA, eram mais de 99%  (!) do tecido empresarial nacional -, mais de 80% do crédito obtido está actualmente a coberto deste regime. Uma nota breve quanto aos particulares: as moratórias deste grupo ascendem presentemente aos 20 mil milhões de euros, 86% dos quais de empréstimos para habitação, num universo de mais de 400 mil famílias. Se é certo que só em Setembro é ...