Uma peste mediática
Reli recentemente A Peste , de Camus. Impulsos epocais, enfim. Seja como for, não foi tempo perdido; reler é uma virtude e um prazer e A Peste é uma narrativa extraordinária. Parece-me relativamente inevitável identificar ali uma série de lógicas e acontecimentos que marcaram o nosso quotidiano nos últimos 500 dias, mais coisa menos coisa. Duas coisas há, contudo, que separam a narrativa camuniana da narrativa covidiana. “Duas” – escusado será dizer que não são só duas. Mas estas duas parecem-me capitais, sobretudo para compreendermos o último ano e meio que vivemos (até porque dificilmente acrescentarão o que quer que seja à leitura do texto de Camus). São elas as doenças propriamente ditas e os media . A Peste (spoiler alert) narra um evento de peste. “A” peste. Assustadoramente fulminante, letal, horrivelmente dolorosa, símbolo absoluto da Morte. A COVID-19 é, numa palavra, nada disto. A narrativa de Camus não contempla os media . O lado socio-comunicacional da epidemia é, no m...