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As vacinas contra a covid-19: um salto de fé

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Soubemos hoje que, AFINAL, a vacina da Universidade de Oxford e da Astrazeneca é mais eficaz se for administrada com um espaçamento maior entre a primeira e a segunda tomas. Inicialmente, o intervalo óptimo seria de até seis semanas. Agora? O dobro. Soubemos outra coisa. As vacinas da BioNTech e da Pfizer podem, AFINAL, ser armazenadas com segurança a uma temperatura mais elevada que aquela definida como necessária durante o seu desenvolvimento. Dos -80º C originais, que obrigaram à compra de equipamentos especiais para conservação e transporte, aponta-se agora às temperaturas garantidas por um... congelador comum, para um período de até cinco dias. Estas rectificações - que não são ligeiras rectificações - surgem quando decorreram mais coisa menos coisa oito (8) semanas da distribuição e aplicação generalizada destas vacinas. Nada de novo. Tem sido assim em tudo. O conhecimento científico está, claro, em permanente actualização. Mas isto é outra coisa. ★ Calcula-se em dez anos o temp...

A dinâmica mediática da pandemia: uma síntese

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A dinâmica mediática da pandemia tem sido esta: manter o lume vivo, provocar uma nova restrição. Quando, nos idos da Primavera passada, se começou a falar do uso generalizado e obrigatório de máscara, ficou de imediato no ar a ideia de que, quando aquela pseudo-causa fosse ganha, outra se lhe seguiria. Assim foi, assim tem sido. E não há sinais de abrandamento. 🜨 Agora que, há poucos dias, a pseudo-causa do fecho das escolas foi alcançada, imediatamente poluem a opinião pública uma série de outras medidas que urge implementar. Nos dias que correm, duas ganham relevo: o fecho de fronteiras (uma espécie de encore) e o uso obrigatório de máscaras FFP2. A experiência diz-nos que, sobretudo num caso como o das máscaras, será talvez apenas uma questão de tempo até que essa norma seja importada. De facto, Alemanha e Áustria já decretaram essa medida e muitos há que olham para aqueles países com uma admiração sem limites. Como já aqui apontámos, é o relativo falhanço das medidas de combate à ...

O funeral de Maradona

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Diego Maradona faleceu no dia 25 de Novembro do ano passado. A cerimónia fúnebre do homem que era muito mais do que um jogador de futebol para o povo argentino (e não só) mobilizou, mesmo em tempos de pandemia, milhares de pessoas. clique para ampliar tirado daqui Quando vi imagens como esta na televisão, pensei, como um autómato: -  Os números covid vão disparar. Ocorreu-me ir verificar esses números. Sublinhei toscamente a semana em que ocorreu o funeral. Cada barra representa uma semana. clique para ampliar fonte: esta Fomo-nos habituando ao período-tipo de 14 dias após presumível contágio para o desenvolvimento da doença, o qual está consagrado na recomendação geral de isolamento profilático para aqueles que tiveram um contacto de risco. Existe também uma recomendação geral de isolamento e monitorização dos sintomas por 10 dias para os casos em que há já um teste positivo ao novo coronavírus, findos os quais, e caso o sujeito esteja assintomático, um novo teste negativo determi...

O supérfluo. A culpa

Estabeleceu-se uma relação perfeita e absoluta de causa-consequência em torno de dois termos: «movimentação humana» & «novos infectados com coronavírus». A relação é de tal maneira perfeita e absoluta que, no discurso publicado, um e outro termos se confundem. São sinónimos. Associa-se-lhes uma sequência directa, tão intuitiva e natural que dispensa, dir-se-ia, explicações: +movimentação humana = +novos infectados com coronavírus = +internamentos hospitalares = +mortos. Esta é a sequência-base que determina, com o peso do unanimismo a que dá corpo, que os movimentos humanos (todos) devem, porque devem , ser reduzidos a qualquer custo. Todos. A qualquer custo. A ordem, difundida a martelo, é linear e não autoriza desvios: os seres humanos devem imobilizar-se. Claro que isto não é realista. "A vida não pode parar", ouve-se. Introduz-se, então, mais uma orientação de fundo: como não se pode parar tudo , pára-se só o que não é essencial ,  o que é supérfluo. Como é que se de...

Mor(t)alidade

A obrigatoriedade do uso de máscara – que, mais do que de enquadramento técnico-legal, é de substrato moral – é uma plataforma de acção sobre o Outro de enorme potência. Identificar o pecado alheio é fácil e imediato; e vai sendo crescente o poder efectivo, o ascendente moral, a legitimação pragmática para dar o passo seguinte: chamar o incauto à razão e, sobretudo, ao castigo. O substrato moral da obrigatoriedade do uso de máscara tem um inequívoco fundo legal e sanitário. Estabeleceu-se que, em certas circunstâncias, o uso de máscara (o correcto, pelo menos) traz benefícios no controlo da propagação viral. Mais marcante que esta dimensão técnica é, contudo, a sua dimensão legal – a consagração na lei. Tornar um dado comportamento obrigatório (ou proibido) por lei parece inspirar em alguns espíritos uma percepção dogmática daquilo que é, é necessário frisar, um produto histórico. Mas o que parece ser essencial a esta qualidade moral da obrigatoriedade do uso de máscara é a noção g...

Covid-19: fenómeno discursivo e social

Já de há umas semanas a esta parte que a estratégia governamental assenta nisto: colocar o ónus no comportamento individual. Há-de ter sido visão dalgum conselheiro mais avisado. O discurso simplifica-se e a mensagem colhe: o vírus, efectivamente, transmite-se de pessoa para pessoa; logo, a transmissão e contágio são derivações directas do comportamento individual; ora se o Governo, de meados de Setembro a esta parte, não passa dez dias sem anunciar novas medidas, a conclusão é só uma: a culpa é de cada um de nós. E nem falta a instrução aos mais altos magistrados da Nação para que, sempre que possam, proclamem -  a culpa é toda minha . A mensagem adere. Mas há uma nuance muito importante - e aquele avisado conselheiro, leitor de Maquiavel e dos teóricos da Recepção, certamente pô-la logo em cima da mesa no primeiro momento: a culpa nunca será acolhida e entendida como sendo "de cada um de nós"; será, isso sim, como sendo  sempre do Outro . A recepção da mensagem traduz-s...

Só mais um Sábado, afinal

Manhã de Sábado. Pouco passa das 9:30. Nove e trinta e três, para ser exacto. Perdão, trinta e quatro (o relógio não pára). Manhã de Sábado, dizia. Daqui a sensivelmente três horas e meia, 7+ milhões de portugueses ficam obrigados ao dever de recolhimento domiciliário. Antes de tocar ao recolher, saí à rua. Primeira coisa que adquiri e que depois me acompanhou em todo o percurso pelas ruas da vila: um pacote de rolos de papel-higiénico. Quatro rolos bem arrumados, um pacote maneirinho, muito portátil, Renova olé! , a embalagem sofisticada articula transparências plásticas com uma paleta de cores suaves e alegretes e formas entre o geométrico e o abstracto que sugerem movimento & infinito. Estes tipos esmeraram-se: a última coisa que vem à cabeça é que isto serve para limpar o cu. Cu. Ora aí está uma palavra impactante. Como será o símbolo fonético de «cu»? ⩊ Cu não leva assento. «Cu» é um vocábulo cru. Cru no estampido fonético ("cu", pam!), cru na quasi-monossemia (só me...