Mensagens

Este blog é um café de bairro

Imagem
Este blog é um café de bairro, vazio e silencioso. Um freguês novo, ao entrar, sente-se forasteiro. Os escassos clientes habituais, esses, estão como que em casa e arrotam à vontade (e pedem fiado, os sacanas). A porta mantém-se aberta à força da renda baixa e de um certo sentido de comédia (no sentido clássico do termo) do proprietário. Espécie de bastião de qualquer coisa antiga, que é o adjectivo usado para o que quer que seja que não apanhe o comboio da moda e da fortuna (motes à parte, que isso são outros vinte e cinco tostões), este blog-café de bairro orgulha-se do seu balcão despido e da sua aparência desinteressada e desinteressante. Orgulha-se, enfim, da sua miséria comercial. Efectivamente, sem moralizar.

"Ter a certeza das dúvidas | Por via das dúvidas saber o que achar"

A opinião chega-nos mastigada, pronta a engolir. Princípio, meio e fim (nem sempre por esta ordem) encontram-nos sentados no sofá, de olhos fixos na jaula de vidro, prevenidamente desprevenidos. Diante de nós planam pedaços entrecortados e desconexos de realidades irreais, rapidamente comentados pelos comentadores e explicados pelos explicadores. Na aparência, nível supremo da linguagem actual, tudo responde a um critério informativo. A uma só voz, eis-nos dando graças à ditosa era da informação. Ademais, pensamos e falamos por palavras. Será porventura nesse campo que mais emporcalhadamente se sentem as dificuldades de tanto nos facilitarem a vida. As palavras, seus significados e cargas, bem como os (por assim dizer) caminhos da conversação, seus motes e bitolas, estão inquinados desde a nascente. Desmontar as opiniões que em prol do nosso superior proveito nos enfiam goela abaixo é, assim, um bico-de-obra do caraças. Convido um tal de Raoul a dar o seu lamiré. Ele não se faz rogado...

Um brinde à 14ª

Imagem

Elogio do Suicídio

A partir de certa idade, que não sou capaz de precisar, passei a acordar todos os dias com o suicídio à cabeceira. Nos primeiros tempos, não o nego, foi difícil. A primeira dessas manhãs foi com efeito dolorosa. Enfim, quiçá por humana fraqueza, decidi-me a adiar. Na segunda manhã, sendo o mesmo homem, novamente adiei. E assim sucessivamente. Desde então, todas as manhãs, umas mais ponderadas que outras, umas mais angustiantes que outras, decido-me a adiar uma vez mais o suicídio. As pessoas dizem-me que tenho pensamentos negros e que devia, isso sim, gozar a vida. E dizem-mo como se isto que faço não fosse uma claríssima declaração de vida, talvez a maior de todas. Anima-me um ponto, sobretudo: só estou vivo porque quero. A morte é uma decisão, um comportamento que depende da minha vontade. A vida não me pesa, uma vez que a morte não ma ensombra. Haverá atitude mais humana, estar pronto a pôr um ponto final na vida e, finalmente, decidir não o fazer, decidir viver? Se, por um lado, me...

Instantâneos 2

Imagem

Dos ordenados

Tendencialmente, dir-se-à que os ordenados são baixos. Dir-se-à que a recompensa monetária concretizada no salário mensal médio não é a adequada ao dispêndio de energia vital (de vida) que o trabalho médio exige (1). Pois estou cada vez mais convencido de que isto não corresponde à realidade. Afinal de contas, e aceitando estes termos, o desperdício diário da nossa vida não tem (não pode ter) preço. Dizer-se que os ordenados são baixos constitui-se, assim, como uma meia-verdade (2). Posto isto, fará sentido ponderar numa outra maneira de colocar as coisas, em alternativa à proposição «os ordenados são baixos». Tal como, por exemplo: os horários de trabalho são grandes. Demasiadamente grandes. . Dir-se-à que, mais que desajustados relativamente ao dispêndio de energia que implicam, os ordenados são, isso sim, insuficientes para permitir uma «qualidade de vida» satisfatória. Quanto a isto, e sem simplificar em excesso ou moralizar, fará sentido alertar para a proporção normalmente observ...

Telegrama 042

042 Maio promete. Ele há já quem receie pelo abalo grave do "clima de estabilidade social" de que o país tanto necessita neste "cenário de crise". Quanto a mim, é o inverso: receio que, chegando Junho, toda a prometida convulsão se revele um novo grandessíssimo nada.