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A folha em branco II

7 A folha em branco é um prédio alto aonde podes subir sempre que te quiseres matar. A folha em branco não serve, como os prédios altos, para chamares a atenção. Na folha em branco, matas-te; não chamas a atenção de ninguém. Não sobes; desces. Na folha em branco, não há lugar para qualquer tipo de fingimento ou compaixão. Não se aglomerará uma multidão aos teus pés, d'olhos colados em ti como um canavial de pássaros ociosos. Não acudirá o corpo de bombeiros, num estrépito de sirenes e buzinas, com uma rede de salvação, prestável & moralista. Não virá nenhum familiar choroso, amigo do peito ou sequer um reles psicólogo para perto de ti, com falinhas mansas, dizer-te que a Vida vale a pena, que ainda há gente que gosta de ti e se preocupa contigo, que o suicídio não condiz com a tua personalidade forte e decidida, que tens tanto para viver! Nada. Na folha em branco encontrarás somente um imenso vale branco, duma brancura de leite, que encandeia, que se entranha, se cola à tua p...

A folha em branco I

1 A folha em branco não autoriza silêncio. Obriga-te a que a anules, preenchendo-a. A folha em branco rouba-te o direito à ausência que tu ainda crês que te assiste. És tu próprio quem se coloca perante a folha em branco. Sim: és tu próprio que te privas de um silêncio que desejas. 2 A folha em branco não existe. A folha em branco é uma invenção tua. É uma abstracção a que, na composição estrangeira da palavra «branco», dás corpo, e onde buscas uma existência paralela, talvez agradável, talvez diferente. Nela te recrias, tu que não existes, tu que te anulas no preencher do teu dia-a-dia. A folha em branco é o teu último reduto. A folha em branco és tu. 3 A folha em branco é uma escarpa sobre o oceano. Para lá do recorte duro da rocha, a Morte, a imensa tranquilidade da Morte. O brilho metálico da Lua sobre o mar, que enfeitiça, a nortada fria, que corta, o impacto monumental das vagas aos pés da ravina. Achas que te falo da Morte? Vejo-te estacado no rebordo precário do abismo. Como po...

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Titula o jornal q «2 dos 3 casos suspeitos em portugal não se confirmam» ca proverbial ligeireza ca não-inscrição autoriza & em larga medida alimenta. A sazonal reciclagem de surtos epidémico-virulentos, a par da repescagem dalgum dos muitos signais do "international terrorism", são duas dentre as mais-que-muitas ferramentas esgalhadas pra manter as gentes num estado d'alerta e-cono-micame-nte rentável. A própria Estabilidade Social ganha com esta merda, pá. Semelhantes notícias marcam o ritmo da dança cus nossos corpos inermes seguem irresistivelmente. Os aparelhos de tele-visão embalam-nos o espírito numa sincronização maquievélica e não há não há como negar o convite: é uma mão displicente e pálida - duma displicência e palidez sensuais - q se nos estende ao cabo de um jantar bem regado a vinho, simultaneamente desejo e imposição, e quando damos por ela nem nos passou pla cabeça uma (1) cousa tã' simples cumo: Parar Pra Pensar. Não nos é autorizado parar. Não d...

Foi quando li a tua mensagem

Foi quando li a tua mensagem que decidi matar-te. Respondi-te Está combinado, amigo. Registei mentalmente a hora e o sítio que propuseste, sítio e hora em que te iria matar. Pensei Mas não vai estar ninguém conhecido para presenciar a cena e é estúpido esperar que um estranho compreenda o que te vou fazer. Ter uma testemunha era para mim imprescindível. Melhor seria convidar alguém que nos conhecesse aos dois. Sugeri então fazer-me acompanhar pela minha prima sabendo que não recusarias, ela que foi sempre do teu agrado. Lembro-me quando a viste pela primeira vez, numa ocasião em que os meus tios nos vieram visitar. Brincámos a tarde toda, com aquela certeza juvenil que o tempo não passa. No dia seguinte a eles tornarem à terra, só falavas nela. E, quando te disse que o meu tio tinha conseguido trabalho cá e que eles se iam mudar para o bairro, não contiveste a alegria. De facto, pensei, ela é a testemunha ideal. Combinei com ela, tal sítio tantas horas. De seguida, a convite do silênc...

Vazio

Já abri o bloco, empunho já a esferográfica, deparo-me com a folha branca em branco, arrisco as primeiras palavras, as primeiras frases, a folha branca deixa progressivamente de estar em branco, é agora um manto de leite com irregulares traços a preto, já a folha tem a metade de cima gasta e ainda eu não sei o que fazer com ela, ainda eu não sei senão que todos os meus nervos e músculos, todos os meus impulsos cerebrais, tudo à uma me impele para escrever, escrever que ao fim e ao cabo não é senão isto, deixar palavras e letras gravadas a tinta, indiferentes ou quase, resistentes ou quase ao correr dos dias, amanhã ou para o ano posso aqui voltar, a esta folha branca que num dado momento deixou de estar em branco, a esta folha branca que aguardava este realizar, este ser que é o do papel, esta concretização de ser riscada, voltar aqui, dizia, a esta folha e, ao fazê-lo, voltar aqui, a esta esplanada fria, a esta manhã inquieta, a esta terça-feira de um junho a dar os seus primeiros pas...

Normalidade (notas sobre)

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Despediu-se o primeiro-ministro e ninguém se ralou grandemente. Tudo o que vai acontecendo é normal e a normalidade não é coisa que deva preocupar uma pessoa. Os acontecimentos normais também não dão azo a pasmos. Despediu-se o primeiro-ministro e não houve quem se surpreendesse genuinamente. Normal é tudo o que acontece de facto. Não há assunto ou sucesso que, tendo acontecido, não deva desse momento em diante ser visto senão como normal. Se aconteceu, é normal - e eis tudo. Conheci um homem que dizia um monte de vezes que normal é cada um usar o cabelo com que nasceu. Esse homem repetia isto com frequência e a propósito de toda a sorte de situações. Era a sua máxima. Era normal ele dizer que normal é cada um usar o cabelo com que nasceu e, como tal, nenhuma das pessoas dos seus relacionamentos se ralava, espantava, ou sequer ligava quando ele o repetia. É quando uma pessoa cessa de se ralar ou espantar com as coisas que acontecem que essas mesmas coisas que acontecem se tornam comple...

O meu amigo diz-me que...

2 O meu amigo diz-me que um trabalhador feliz produz mais. E que importa isso? Um trabalhador infeliz consome mais, e eis o que importa. Uma pessoa infeliz tem mais necessidades, e de todas as ordens, e, por força de se ver cercada de infelizes incapazes de lhe suprirem emocional e praticamente as carências, vinga-se na mercadoria, na tralha, no hi-tech - onde aliás se revê, com que, em larga medida, se identifica. Neste ponto, o infeliz não encontra felicidade senão na mercadoria. O contacto interpessoal só lhe é aprazível numa dialética de consumidor-vendedor. O aumento da produção não é, como nos querem fazer crer, questão premente para as economias das nações amodernadas. O consumo, esse sim, o consumo é fulcral, é crítico. Ora bem, temos que, economicamente falando, urge promover um desenvolvimento sustentado da Infelicidade. É manter a rota, portanto. "Tudo a sudoeste!", como rugia aquele bem-aventurado capitão que não hesitou em deixar para trás um marinheiro caído ao...