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Negacionismo invertido

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Ouvi na rádio à hora de almoço: Jens Spahn, Ministro da Saúde alemão. disse que, nos próximos meses, os alemães estarão "vacinados, curados ou mortos". É uma forma curiosa de pôr as coisas. A premissa subjacente a esta extraordinária afirmação é muito simples: desde que estejam vivos, os alemães ficarão doentes com COVID-19. O resto define-se a partir dessas duas traves-mestras (Vida & COVID-19) e restam três vias, que, supõe-se, se excluem mutuamente: ou estão vacinados (e vivem), ou estão curados (e sobreviveram), ou estão mortos (e é bem feita). Há certamente muito mérito nesta informação - porque é de uma «informação» que se trata (obrigado, Jens) e não de uma «opinião» ou «laracha» (haja respeito, o homem, além de ministro, é alemão). E mais que mérito, há rigor, há benefício, há mesmo muito boa gente a quem isto sobremaneira animará. Desde logo, os mercados: ninguém gosta mais de previsibilidade (e previsibilidade maquiavélica, ainda por cima) do que as agências de ...

In nomine Salutem

De volta a casa, de volta ao "teletrabalho". Devia estar animado. Afinal de contas, o teletrabalho é excelente. Mas sinto-me meio anestesiado. Tudo isto me perturba profundamente. Aquilo a que assisti nos últimos dois ou três dias no escritório afectou-me. É confuso e é difícil distinguir os momentos e os gestos. De resto, nada disto é novo ou é especialmente estranho e foi tudo (a meu ver, pelo menos) extraordinariamente rápido. Fica-me a impressão de uma onda silenciosa. Como uma onda, não a podemos parar e só aparentemente sabemos donde ela vem e onde vai rebentar. Foi ela que nos trouxe de volta a casa. Para já, foi aqui que nos trouxe. O desejo de voltar ao teletrabalho era expresso e várias vezes falado. Ei-lo tornado realidade. Tudo em nome da protecção da Saúde de todos e de cada um. In nomine Salutem. Um colega testou "positivo" na segunda-feira. Seguiram-se-lhe mais dois, dentre um grupo mais alargado de colegas que, por algum critério que me escapou, se s...

A ditadura da (vacinação) COVID-19

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1. Qual é a melhor maneira de descrever o grau, ou o tipo, de obrigatoriedade da vacinação COVID-19 na generalidade dos países ocidentais? Trata-se de uma obrigatoriedade indirecta ou de uma obrigatoriedade velada?   Subentendida ou oficiosa? Envergonhada ou desavergonhada? Prática ou por inerência? O fenómeno levanta, como se vê, questões semânticas de alevantadíssimo interesse. Note-se, porém, o seguinte: a discussão será sempre, sejamos francos e rigorosos, a da adjectivação da obrigatoriedade. Porque que é obrigatório não se discute. 2. Em Portugal tivemos o uso generalizado do chamado «certificado». Só os cidadãos com certificado (leia-se, os cidadãos certificados) podiam, por exemplo, jantar no interior de um restaurante entre sexta-feira e domingo ou, outro exemplo, pernoitar numa unidade hoteleira. Havia, bem sei, a alternativa do teste negativo, mas o essencial é isto: a cidadania conheceu (conhece ainda) uma hierarquia: os que têm certificado e os que não têm certificad...

O OE para 2022 e duas notas para memória futura

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Foi hoje feita a apresentação pública da proposta governamental para o Orçamento do Estado do ano que há-de vir. Ouvi, em directo, com toda a atenção. Mas, depois de um preâmbulo arrastado em que Leão, monocórdico, descreveu um mundo paralelo para onde seria bom emigrarmos todos (onde os hospitais têm médicos e enfermeiros até ao tecto, onde as famílias dão um pontapé numa pedra e saem de lá milhões em poupanças), logo os indexantes, os rendimentos colectáveis, os englobamentos, os PEC e os IEC e os mais que nem fixei - me deram um nó. E fui progressivamente ficando como alguém que se inicia num novo idioma e se aventura já numa primeira conversação: depois das saudações iniciais, que fazem tudo parecer tão fácil, fui perdendo o fio à meada e fui caindo na real: ainda não sou proficiente nesta língua estrangeira. Porque é de um sentimento de exclusão - um sentir-se estrangeiro - que se trata. O assunto é necessariamente técnico, não discuto isso. Mas não bate certo. Feitas as contas, é...

Um povo que se demite em bloco

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Há umas semanas atrás, o alerta que se segue teria sido percepcionado e veiculado nos media como "sinal claro" de "relaxamento" e "incumprimento" e teria levado especialistas e cidadãos comuns a defenderem a "necessidade urgente" do "endurecimento" das medidas de controlo da pandemia. Mas o tempo é já o de um pós-pandemia qualquer. E a precariedade histórica, sistémica, estrutural do SNS - reduzida ao longo de meses a produto exclusivo dos "relaxamentos" e dos "ajuntamentos" - voltou ao seu lugar costumeiro nos alinhamentos dos telejornais: ensanduíchada entre a última guerra intestina do CDS-PP e os golos dos jogos de futebol da véspera. Setúbal, Faro, Évora, Vila Franca de Xira - a lista aumenta a cada novo dia. Entretanto, discute-se o Orçamento do Estado. E, depois de mais de ano e meio de crise sanitária, de uma segunda "gripe espanhola", de #vaificartudobem, #fiqueemcasa e o diabo a sete, de bocas che...

Domingo de votar

Eleições autárquicas, domingo de votar. Levo já o voto decidido, não guardo a escolha para depois. Escolhi logo na sexta, enquanto tomava o café na esplanada. Voto naqueles que buzinaram mais e mais alto e durante mais tempo e com a maior caravana de automóveis. Só lhes decorei a cor das bandeiras. Espero que o boletim seja a cores. Se, a bem da fazenda nacional, o boletim for a preto-e-branco, faço um-dó-li-tá. Mas em surdina. O acto é solene e impõe-se algum decoro. Numa eleição nacional, até ver, nunca fui capaz de votar em alguém. Como me chega o boletim, assim o devolvo, salvo que dobrado religiosamente em quatro e não sem antes ir para trás do biombo, guardar um segundo ou dois para despistar e só depois começar a dobragem. Isto é, com excepção dos referendos, só em autárquicas é que botei uma cruz. Mas isto sou eu, que venho de uma zona urbana, onde o distanciamento (de classe) social já era lei antes da pandemia. Quem cresce e vota numa zona menos urbanizada, testemunha vezes d...

O cerco mediático: dois sinais (e uns pozinhos)

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Duas coisas há que entram pelos olhos adentro: que esta pandemia é um fenómeno eminentemente mediático; e que os media, genericamente falando, têm feito de tudo para manter o lume vivo. Isto é dizer, respectivamente, que: - não fora a acção específica da comunicação social (sobretudo a televisiva e a online) e tudo seria completamente diferente; e que - os media têm optado por noticiar (a martelo) umas coisas e calar outras (ou pelo menos dizê-las muito, muito baixinho), sem que se vislumbre nessas opções critérios de imparcialidade, objectividade ou isenção. Ao invés, o que transpira desse posicionamento é exactamente o inverso: parcialidade, subjectividade, conveniência narrativa. Isto é tudo impressão minha, não o nego. E, num tempo em que as bocas andam tão cheias de Ciência, fica mal não acompanhar estas afirmações com um estudo norte-americano (ou algo do tipo). De facto, esta treta das impressões não vale nada e importa muito pouco. São coisa arcaica, pré-científica, feita só de...